Violei uma das principais regras do manual do espectador e criei alguma expectativa para Consequência (Outcome), longa que chegou ao streaming da Apple TV+ em 10/4. Keanu Reeves encabeçando um elenco bom, uma comédia, referência Apple, que parece sempre pensar fora da caixinha para contar histórias… Enfim, tudo parecia promissor.
Fica claro que tomei um tombo. Não é que o filme seja ruim, mas se pudermos classificá-lo como uma comédia de humor ácido, diria que sobrou mais ácido e menos comédia. Foram poucas as situações em que me peguei reagindo com um mínimo de riso na cara.
Pior: ainda tinha vendido a ideia aqui em casa de que valeria muito a penas conferir esse lançamento. Imaginem a pressão e o desconforto na poltrona ao ver as reações desinteressadas do meu público.
Pudera. Consequência é um filme meio que fechado nele mesmo. Pode fazer muito sentido para quem acompanha os “bastidores de Hollywood” ou o TMZ. Duvido, porém, que vá tocar o público civil, aquele que não lembra quantos e quantos atores mirins de sucesso tiveram uma carreira (e uma vida!) adulta problemática.
Não por acaso vemos participações especiais de David Spade e de Drew Barrymore no filme. A lista é gigante e constantemente alimentada. Claro, existem casos que saem do estereótipo de “garoto (a) problema”.
Também não por acaso, esse foi o tema escolhido por Jonah Hill para tocar seu terceiro trabalho como diretor, aqui também dividindo roteiro e produção. E Keanu Reeves (John Wick) escolhido para o papel do protagonista, Reef Hawk, um astro de Hollywood amado pelo público, mas que vê sua carreira em risco após ser extorquido com um vídeo misterioso. Aliás, é forçar a barra lembrar que o plural de Reef em inglês é Reefs, em uma brincadeira com o eterno Neo?
De prodígio infantil a adulto inseguro, Reef escondeu seu vício em heroína por anos, passou pelo detox e agora vive à mercê de outra droga poderosa: as redes sociais. Não aguenta de ansiedade só de imaginar que as pessoas passaram a odiá-lo na web. Mal moderno.
O roteiro transforma essa premissa em uma “viagem pela estrada da memória”, onde Reef precisa pedir perdão a todos que magoou no passado para minimizar o impacto que uma visão negativa de sua persona pode causar ao seu mundinho. Seguindo o conselho do seu advogado para crises, Ira (Hill, quase irreconhecível). No elenco, Cameron Diaz (As Panteras) e Matt Bomer (White Collar) brilham como os amigos de longa data que servem como o lastro de realidade do protagonista. A participação especial de Martin Scorsese adiciona uma camada extra de prestígio e ironia ao ecossistema da indústria retratado na tela.
O trunfo de Consequência é a exploração das relações parassociais – aquela ideia de que o público acha que conhece o artista pessoalmente. A produção acerta ao criar cenas onde estranhos abordam Reef como se fossem íntimos, contrastando com a solidão real do astro. É um filme sobre a busca pela autenticidade em um mundo de filtros de redes sociais. É uma obra que não tem medo de ser estranha. Se você busca uma sátira inteligente que foge das fórmulas prontas, o veredito é positivo. Só não ache que vai chorar de rir…
