Crítica | Filme | Michael

Crítica | Filme | Michael

Biografias cinematográficas de astros falecidos seguem dois caminhos. Se aprovadas pelos herdeiros, que geralmente vivem do dinheiro gerado pelo falecido, saem elogiosas, treinadas para saltar momentos negativos e erros cometidos, mesmo aqueles de pleno conhecimento do público. Caso não autorizadas, podem pender para o ataque sem fronteiras. Com Jaafar Jackson, sobrinho de Michael interpretando o tio superfamoso e vários Jackson nos créditos do longa, não é preciso muito raciocínio para saber para que lado pende a biografia do rei do pop que após vários adiamentos e uma refilmagem que custou 15 milhões de dólares chega aos cinemas com direção de Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor).

Estruturado de forma cronológica, o longa vai até Gary, comunidade pobre e violenta do estado de Indiana onde Joe Jackson determinou que seus filhos Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael seriam um grupo musical. Candidato sério ao título de pior pai da história da música pop – e é assustador saber que ele tem competidores -, Joe, um músico de blues malsucedido, foi o primeiro a ver talento nos filhos. Seu método para nutrir esse talento, no entanto, incluía ensaios exaustivos e surras como penalidade por qualquer erro. Instrumentos como cintos, cabos elétricos e varas eram presença constante na vida dos garotos da família Jackson, em especial do menor e mais talentoso do grupo, Michael, ação paterna que estaria na raiz de todo o comportamento do homem que falava com voz de falsete, povoava sua mansão com animais como uma girafa, uma lhama e um chimpanzé e gastava fortunas em brinquedos. Joe seria a razão também pela futura gana de Michael por cirurgias plásticas, já que não hesitava em criticar o nariz do filho. Não há segredos aqui e Colman Domingo faz um esperado ótimo trabalho em interpretar o homem que aterrorizou a vida dos filhos ou, segundo Jermaine em sua biografia, manteve os garotos na linha e longe das gangues e da criminalidade de Gary. Já Katherine, interpretada por Nia Long, sai do filme como o exemplo de mãe doce, mas ineficaz em proteger os filhos, em especial Michael, alvo primário da violência paterna.

Interpretado com talento por Juliano Valdi quando criança e na fase adulta por Jaafar Jackson, cuja voz foi mesclada à voz de Michael Jackson nos números musicais, o que surge na biografia é um artista de indiscutível talento e que poderia ter brilhado no palco sem surras e ameaças. Mas, também um homem desconectado da vida real, mais próximo de seu chefe de segurança, Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones) do que seus próprios irmãos e tão apavorado que mesmo já adulto e indiscutivelmente o ganha-pão da família, usa advogados como John Branca (Milles Teller) e empresários para comunicar ao pai que deseja seguir carreira solo.

O filme termina no auge do sucesso de Michael, período do lançamento dos álbuns Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987), da gravação do videoclipe de Thriller, recriada com apuro para o filme, e também do comercial da Pepsi em que uma faísca no palco incendiou o cabelo de Michael. Assim como credita a Joe os traumas que tiveram papel preponderante em quem Michael se tornou, a produção faz questão de apontar as graves queimaduras no couro cabeludo e a sequência de cirurgias que prometeram sanar os danos como a origem do vício em analgésicos que dominaria a vida do cantor e o levaria à morte.

Já qualquer controvérsia, qualquer nesga de luz negativa, ficou de fora. Assim como Janet, a irmã mais famosa da família Jackson depois de Michael, que não é vista nem na tela, nem nos créditos. O enfoque não é uma surpresa. O produtor Graham King nos deu Bohemian Rhapsody, cinebiografia de Freddie Mercury que flutuou acima dos hábitos menos recomendáveis do vocalista do Queen. No comando de um filme feito para reforçar a visão de Michael Jackson como vítima, tanto da violência paterna como da fama excessiva enquanto ainda muito jovem para se defender, dono de um talento inigualável e que saiu de um processo judicial sem que fossem apresentadas provas inequívocas das acusações, King faz o prometido ao espólio do cantor. Entrega um elogio com reconstrução de época, shows e videoclipes bem-feita, elenco bem escolhido e afinado.

Já o comentário de que Michael pode ganhar uma sequência pode ter o mesmo destino das cenas gravadas que mostravam investigadores chegando à mansão Neverland em busca de evidências das acusações de pedofilia. Enquanto a trajetória de Michael de Gary ao sucesso planetário têm fatos suficientes para deixar de lado o que é inconveniente, o que vem a seguir não dá tanta liberdade. Melhor ficar por aqui. Estreia em 23/4 distribuído pela Universal.

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