O YouTuber americano Ismael Ramsey Khalid foi condenado à seis meses de prisão na Coreia do Sul. Conhecido nas redes sociais pelo pseudônimo Johnny Somali, o YouTuber foi indiciado em novembro de 2024 após publicar um vídeo no qual aparecia beijando e dançando de forma obscena diante da Estátua da Paz, monumento que representa e homenageia as vítimas de escravidão sexual durante a Segunda Guerra Mundial.
Khalid se notabilizou por atrair cliques com vídeos em que aparece perturbando as pessoas. Na Coreia do Sul, ele causou problemas no transporte público e parques de diversões, vandalizou uma loja de conveniência em Seul e publicou vídeo obscenos gravados em locais públicos. O YouTuber também gravou vídeos gritando “Takeshima” enquanto segurava a bandeira de guerra japonesa, uma menção à ilha coreana de Dokdo, território disputado pelos dois países. Antes da Coreia, Khalid foi preso em Osaka por suspeita de invasão de um canteiro de obras e publicou vídeos em que aparece insultando os passageiros do metrô japonês e fazendo provocações sobre os bombardeios de Hiroshima e Nagazaki. Khalid também chamou a Coreia de vassalo dos Estados Unidos.
Khalid não é o único a atuar no gênero de criadores de “conteúdo” cujo único atrativo é demonstrarem falta de educação. Os países asiáticos, onde o respeito ao espaço público é estabelecido, têm sido alvo frequente desse tipo de ação. No Japão, criadores de conteúdo estrangeiros foram acusados de sonegar tarifas nos trens, fazer flexões no portal de um santuário e executarem danças pornográficas no metrô de Tóquio. Pessoas gritando nas estações de trem “para agitar o lugar”, viraram cena comum. Em busca de imagens e fama, YouTubers e streamers não pensam duas vezes antes de desrespeitar templos religiosos. Fora da Ásia, outros países enfrentam problemas semelhantes como em Veneza, onde é frequente encontrar estrangeiros nadando nos canais, muitas vezes nus.
A Estátua da Paz

A Estátua da Paz mostra uma menina sentada em uma cadeira. O cabelo cortado e de forma irregular representa o fim da infância das jovens levadas para serem “mulheres conforto” para os soldados do Exército Imperial japonês antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Os pés descalços e que não tocam o chão lembram que as meninas eram mantidas sem sapatos para dificultar a fuga e que muitas jamais voltaram para casa, mesmo após a guerra. O rosto sério e os punhos fechados mostram a determinação das mulheres por um pedido oficial de desculpas, enquanto o pássaro pousado no ombro simboliza a paz e a liberdade. Ao lado da garota, uma cadeira vazia lembra as muitas mulheres conforto que já morreram. Além de Seul, monumentos similares foram instalados nos Estados Unidos e Alemanha.
Assunto espinhoso nas relações entre Coreia e Japão, as mulheres conforto aparecem com frequência na produção coreana. Longas como Herstory (2018) e Snowy Road (2015) e episódios como Spring, da série Tomorrow (2022), lembram um dos capítulos mais dramáticos da história coreana. Em Pachinko, do Apple+, uma amiga da personagem principal é descrita como “levada para trabalhar numa fábrica”, truque usado com frequência pelos militares japoneses no rapto de mulheres. Calcula-se que cerca de 200 mil meninas e jovens da Coreia, Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietnã, Tailândia e Timor Leste foram vítimas de escravidão sexual durante a ocupação japonesa.
Pena curta
A pena de Khalid foi considerada pequena diante da proposta inicial de que o YouTuber poderia passar cinco anos na cadeia.
Em 2025, o YouTuber, que estava detido na Coreia, divulgou um pedido de ajuda para custear sua defesa e suas contas, já que estava proibido de deixar o país e de produzir seus vídeos.
Após ofender as vítimas de escravidão sexual, Khalid divulgou um vídeo pedindo desculpas e dizendo que não sabia do significado da estátua, como se a própria existência de um monumento já não fosse indicativo de algo culturalmente importante. Antes do julgamento, a mãe do YouTuber fez um pedido de clemência.
Além dos seis meses de cadeia, Khalid vai passar mais 20 dias detido e está proibido de trabalhar com crianças ou pessoas portadoras de deficiência, ou qualquer entidade ligada a esses públicos pelo período de cinco anos.
Durante toda a controvérsia, contudo, Khalid apontou um elemento importante e que exige reflexão: ele faz seus vídeos para ganhar dinheiro e ganha dinheiro porque as pessoas assistem.
