Crítica | Filme | Aqui Não Entra Luz

Crítica | Filme | Aqui Não Entra Luz

Aqui Não Entra Luz parece mais um documentário focado em um assunto delicado, mas na verdade é um acerto de contas histórico brasileiro. O longa-metragem é escrito e dirigido por Karol Maia, filha de uma ex-trabalhadora doméstica que conduz o filme em primeira pessoa, costurando memórias familiares com relatos de mulheres de quatro regiões diferentes do país.

Em comum, elas têm suas histórias em uma das atividades “econômicas” mais antigas do país. Na verdade, só se torna de fato uma atividade econômica bem recentemente, quando os trabalhadores domésticos passam a ser uma categoria representativa.

Ainda assim, casos de trabalhadores domésticos que viviam em condições análogas à escravidão adentraram o século 21. Obviamente, o tal local onde não entra luz é o “quarto de empregada”, tradicionalmente, esse espaço pequeno e mal iluminado comum nos lares brasileiros. Praticamente uma extensão simbólica da senzala.

Além da narrativa calcada nas experiências dessas pessoas, Karol expõe a permanência do racismo estrutural e da desigualdade social no cotidiano doméstico a partir dessa “solução arquitetônica” encontrada pela elite branca. E também traz à tona (depois de alguma insistência) a voz de sua própria mãe.

O que vemos nos dias de hoje via Aqui Não Entra Luz é um breve mosaico sobre a informalidade e a precarização de uma atividade exercida majoritariamente por mulheres negras. Não há como alguém discordar disso.

Como afirma a própria diretora, o trabalho doméstico é a espinha dorsal do Brasil, e o filme coloca essa realidade sob um holofote necessário, revelando trajetórias marcadas pela exploração, mas também por uma resistência inabalável.

Embora o tema seja denso e, para muitos, desconfortável, a produção foge do didatismo seco. O documentário articula escuta e afeto para dar visibilidade a vidas que a história oficial tentou esconder nos cômodos de serviço.

Por fim, Aqui Não Entra Luz é uma experiência cinematográfica ótima para reflexão, cidadania e aprimoramento do ser humano. Pelo menos alguns. Estreia em 7/5 distribuído pela Embaúba Filmes.

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