Posso achar que a falta de criatividade é o que tem motivado os exibidores, numa sutil parceria com os estúdios que distribuem filmes, a trazer preciosidades do cinema para que as novas gerações as conheçam em um ambiente importante como a sala de cinema. É claro que isso exige que o público decida deixar de lado o celular, onde eventualmente está assistindo a alguma obra no streaming, e venha mergulhar no escurinho do cinema para abrir sua mente para outra realidade.
Nos últimos anos, especialmente no pós-pandemia, os circuitos exibidores, em parceria com os distribuidores dos grandes estúdios, têm organizado mostras de obras clássicas de várias épocas. O Cinemark trouxe diversos clássicos do cinema americano, como Rastro de Ódio, filme de 1956 dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, Jeffrey Hunter, Ward Bond e Natalie Wood. No Cine Marquise, o público paulistano pôde conhecer o épico de David Lean, Lawrence da Arábia, vencedor do Oscar de Melhor Filme. A Sato Company realizou um festival com as principais obras de Hayao Miyazaki, o grande animador japonês, em vários cinemas do país.
Todos esses momentos trazidos do passado, em cópias digitais, vêm atraindo cada vez mais público para vê-los no cinema. Não apenas os fãs da Sétima Arte, mas principalmente essa nova geração que, aos poucos, está entendendo que ver um filme é assistir e compreender o trabalho criado para o entretenimento geral – não apenas atribuir “positivo” ou “negativo” em uma rede social.
É por isso que é importante continuar incentivando os exibidores a abrirem suas salas para essas iniciativas, como a que a Paramount Pictures decidiu fazer agora, trazendo Top Gun – Ases Indomáveis, de 1986, e sua continuação Top Gun: Maverick, que chegou em 2022 aos cinemas, salvando a bilheteria do ano com um faturamento de mais de 1 bilhão de dólares.
Nos céus iluminados
A volta de Top Gun – Ases Indomáveis e Top Gun: Maverick aos cinemas brasileiros reposiciona dois marcos do entretenimento hollywoodiano sob uma nova perspectiva: a de como o cinema de ação evoluiu na relação entre elenco e espetáculo ao longo de mais de três décadas.
No filme original, lançado em 1986, o peso dramático recai quase integralmente sobre Tom Cruise, que se transformou em um ímã para seus trabalhos futuros. Ele havia feito uma participação em Toque de Recolher, como um jovem cadete que surta e abre fogo contra a multidão. Francis Ford Coppola o dirigiu em Vidas sem Rumo, o mesmo ano em que a comédia romântica Negócio Arriscado colocou seu nome em destaque. Em 1985, Ridley Scott o dirigiu em A Lenda, enquanto Tony Scott encontrou no ator o intérprete ideal para Pete Mitchell, o audacioso piloto da Marinha dos EUA, codinome Maverick.
Maverick é construído a partir de um carisma direto e impulsivo, sustentado por uma atuação física e magnética. Ao seu redor, o elenco cumpre funções bem definidas: Val Kilmer (Iceman) encarna o rival técnico e emocional, Anthony Edwards (Goose) oferece o contraponto afetivo, enquanto Kelly McGillis conduz o eixo romântico como Charlie. Trata-se de um modelo clássico do cinema dos anos 1980, em que o protagonismo é centralizado e os coadjuvantes orbitam em torno da estrela.
Já em Top Gun: Maverick (2022), embora Cruise permaneça como figura central, a estrutura do filme se torna mais equilibrada. Ela se distribui entre Miles Teller, que interpreta o filho de Goose, o novo interesse romântico de Maverick vivido por Jennifer Connelly, e o piloto vivido por Glen Powell, que remete ao arquétipo de Iceman. Esse conjunto ajuda a equilibrar a narrativa do começo ao fim. A principal diferença entre os dois filmes está fora da tela: todo o elenco foi submetido a um rigoroso treinamento para voos reais, o que se reflete diretamente na performance. As reações captadas em cena – tensão muscular, respiração irregular e esforço físico – não são simuladas, mas resultado das condições reais de filmagem.
Essa busca por autenticidade encontra seu ápice nas sequências de ação. Em Top Gun (1986), os combates aéreos são apresentados no estilo tradicional, com montagem rápida, enquadramentos externos e uso expressivo da trilha sonora, criando uma sensação de velocidade mais sugerida do que vivida. O filme dialoga com a estética do videoclipe, típica da época, priorizando o impacto visual e a construção de ícones. A música Take My Breath Away, do grupo Berlin, venceu o Oscar de Melhor Canção.
Por outro lado, Top Gun: Maverick adota uma abordagem técnica mais sofisticada e imersiva. As cenas foram filmadas com câmeras instaladas no interior de caças reais, colocando os atores sob forças físicas extremas. A câmera deixa de ser apenas observadora e passa a funcionar como extensão da experiência do piloto. O resultado é uma ação mais tangível, em que o espectador percebe não apenas a velocidade, mas também o peso e o risco de cada manobra.
O melhor de dois mundos
Um ponto em comum entre os dois filmes é o drama pessoal de Pete Mitchell em relação ao seu passado. Em Top Gun – Ases Indomáveis, ele perde seu amigo Goose durante um treinamento, carregando essa perda até o momento em que ela se transforma em ação no clímax do filme.
Essa dor o leva a colocar em xeque sua missão em Top Gun: Maverick, já que um dos pilotos convocados é Bradley Bradshaw (Miles Teller), codinome Rooster, filho de Goose. Durante anos, Pete impediu que o jovem seguisse a carreira militar. O filme constrói esse confronto entre passado e presente de forma intensa e catártica.
A reexibição dos dois títulos evidencia, portanto, uma transformação significativa: do espetáculo estilizado e centrado na figura do astro, em 1986, para uma experiência mais coletiva, física e tecnicamente elaborada em 2022. Se o primeiro consolidou um imaginário, o segundo amplia suas possibilidades, demonstrando como o cinema de ação pode evoluir sem abrir mão de sua essência. Não foi à toa que Steven Spielberg afirmou que o filme ajudou a salvar Hollywood.
Seja pela comparação ou para observar a evolução de um ator e seu personagem, assistir a essas duas obras neste momento reforça a ideia de que ainda existe vitalidade no cinema.
Top Gun – Ases Indomáveis reestreia em 13/5 e Top Gun: Maverick, em 14/5.
