Crítica | Filme | Eu Não Te Ouço

Crítica | Filme | Eu Não Te Ouço

O espectador, em especial o brasileiro, ganha um espelho inusitado com a estreia de Eu Não Te Ouço, filme que encerra a trilogia política dirigida por Caco Ciocler (Partida). Inspirado no caso real do manifestante que se agarrou a um caminhão durante a corrida eleitoral presidencial de 2022, o longa utiliza a ficção para investigar o que restou da nossa capacidade de comunicação.

Além de ser um projeto audacioso, ainda mais se considerarmos a linguagem cinematográfica, um ponto forte do filme é a atuação de Márcio Vito (Noites Alienígenas), que assume os dois lados em cena. O da cabine, como o motorista, e o de fora, como o manifestante trajando camisa da seleção brasileira de futebol.

Vito, que também colabora no roteiro, atua equilibrando o absurdo da situação com uma vulnerabilidade palpável. Tão palpável que, se o espectador não souber nada do projeto, pode julgar tratar-se de um documentário. Ao menos pelos minutos iniciais.

A grande metáfora de Eu Não Te Ouço, o isolamento e a incompreensão causados por aquela barreira de vidro, remete diretamente à realidade política brasileira atual, dividida entre direita e esquerda. Na verdade, trata-se de um grande “nós ou eles” que aplica a todos os temas: política, religião, vacina, cultura, formato do planeta… Ou você está “com nós” (desculpem assassinar o bom português) ou você está com eles.

Isso tudo apoiado em um texto muito bom, que cativa a atenção se o espectador deixar seus valores dormentes por um tempo. Se não for capaz, acho que nem compra o ingresso e ainda sai falando mal…

Fato é que Caco deve ter imaginado poder botar todo mundo pra pensar com seu road movie carregado de humor ácido. Ele fez de um episódio que virou meme em uma reflexão sobre a impossibilidade do diálogo, com técnica minimalista, para mostrar um país que tenta conversar consigo mesmo sem sucesso.

Claro que a estrutura limitada do cenário pode desafiar o ritmo da narrativa para parte do público, mas vale insistir. Porque Eu Não Te Ouço não busca culpados, mas sim, analisa um momento de surdez coletiva no Brasil. Em um exercício dramatúrgico potente que ajuda a processar o presente brasileiro. Estreia em 14/5 pela Amaia Distribuidora.

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