DTF St. Louis? Sem exagero algum, uma das séries mais inteligentes à qual assisti no ano… Talvez nos últimos tempos. Um exercício de storytelling para quem não se deixar barrar por um título enigmático.
DTF, em inglês, é uma gíria da internet que significa Down To Fuck. Em uma tradução informal para o português, equivale a estar “a fim de transar” ou “disponível para sexo”. O DTF St. Louis é um app operando nessa cidade do Missouri que acaba despertando a curiosidade de dois grandes amigos. Tudo ia aparentemente bem até que um deles aparece morto, com indícios de suicídio. Será? Falar mais estraga.
Pois o caso policial nessa minissérie de humor ácido da HBO é apenas o menor dos temas, a meu ver. O que enche a tela mesmo são as relações humanas, principalmente entre os dois amigos e suas famílias. Até mesmo os personagens coadjuvantes, como a dupla de investigadores que atua no caso, são ricos e entregam performances deliciosas. Por exemplo, Peter Sarsgaard (Presumed Innocent) interpretando um dos usuários do aplicativo, com sutilezas e humanidade marcantes. Ou Richard Jenkins (Dahmer: Um Canibal Americano) e Joy Sunday (Wandinha), que vivem a dupla de detetives citada.
Ainda que alguém possa alegar um ritmo lento e muito falatório, não há como escapar da riqueza do texto e do sabor das interpretações.
A trinca protagonista (até evidenciada nos materiais de divulgação da série) é formada por Jason Bateman (Black Rabbit), David Harbour (Stranger Things) e Linda Cardellini (Nonnas). Que estão muito bem e à vontade em seus papéis. Claro, têm talento para desenrolar sua profissão e tiveram capacidade de abraçar temas sensíveis e atuais despidos de suas reputações, eventualmente.
Grosso modo é aquilo que falaram do ator Wagner Moura por ocasião do lançamento de Praia do Futuro (2014): como é que o Capitão Nascimento faz um papel desses? Comparação tosca, eu sei, mas na mesma proporção.
O público acaba se apegando ao personagem em determinado trabalho e esquece que nessa profissão, hora se é bandido, hora se é mocinho. Bom entendedor captará a mensagem, para não contar demais da história.
E aqui, sim, um ponto fortíssimo de DTF St. Louis: a história. Que teria tudo para ser simplesmente um conto policial, tipo whodunnit. Salvo não fosse o roteiro algo muito bem desenvolvido, sem barrigas, “aquilo que ninguém viu” ou insultos à inteligência do espectador.
Não. O trabalho de Steven Conrad (Patriot), criador, diretor e roteirista da série, é de altíssima qualidade e de total maestria. Ele consegue conduzir o público do começo ao fim sem pressa alguma, de forma inteligente, crítica e sem qualquer julgamento.
Como não gosto de cravar que “todo mundo vai gostar” de DTF St. Louis, vou para outro lado: quem der uma chance para a minissérie da HBO pode sair do seu último episódio feliz com a vida.
