Crítica | Série | Brasil 70: A Saga do Tri

Crítica | Série | Brasil 70: A Saga do Tri

A Netflix segue em sua toada lançando séries tematizadas no futebol até a próxima Copa do Mundo (que começa em 11/6). Talvez uma tentativa de unir corações e mentes brasileiros, em sua maioria enfastiados com a camisa verde amarela em função do sequestro das cores pela política extremada.

Tarefa nada fácil uma vez que, historicamente falando, produções com foco em esportes (ainda que seja o furebol) não costumam ir muito bem de público. Honras sejam feitas a Garrincha, Alegria do Povo (1962), Isto É Pelé (1974) e talvez Pelé Eterno (2004).

Assim, já estava meio com o pé atrás com Brasil 70: A Saga do Tri por se tratar de uma minissérie baseada em fatos reais focada na conquista de um dos títulos mais relevantes do País do Futebol. O começo foi difícil. Fiquei lembrando daquela coisa constrangedora chamada Pelé: O Nascimento de uma Lenda (2016), com o excelente ator Vincent D’Onofrio interpretando Vicente Feola na Copa de 58 e pedindo para seu time usar a “djingah” para ganhar o caneco na Suécia. Afe Maria, que experiência ruim…

Mas passado os dois primeiros episódios a coisa deslanchou. A série acertou memórias afetivas que nem eu sabia que estavam lá. Afinal, tinha somente cinco anos de idade na época, tenho apenas flashes da comemoração nas ruas da Mooca, nada mais.

Claro, vi e revejo sempre que possível as grandes jogadas de 70 e os gols inesquecíveis daquela jornada. Já com outros olhos. Olhos de quem já apreciou mais o futebol; hoje, nem tanto.

Isso, contudo, não importa. O que importa mesmo é que a Netflix caprichou na produção de Brasil 70: A Saga do Tri, assinada pela O2 Filmes e trazendo o trio de diretores Paulo Morelli, Pedro Morelli (que também assina como showrunner) e Quico Meirelles. Locações no México, por exemplo, aproximam mais o espectador da campanha. As refações milimétricas da maioria dos gols sofridos e feitos pela seleção também está impecável. E ainda deu tempo para, timidamente, pincelar o panorama política vivido em nosso país em plena ditadura militar.

Algumas das pinceladas têm assinatura do jornalista João Saldanha (vivido convincentemente por Rodrigo Santoro), comunista confesso que deixou o comando da seleção brasileira às vésperas da Copa do México. Em seu lugar entra Zagallo, vivido por Bruno Mazzeo. Que não se parece fisicamente com o lendário treinador, mas que parece imitá-lo na voz e trejeitos. Funciona bem.

Agora, a semelhança de Lucas Agrícola com Pelé é impressionante. Embora mais alto que o Rei do Futebol, certos ângulos da câmera enganam bastante o espectador e ajudam a vender o peixe.

E estão todos lá: Tostão, Rivellino, Gérson, Félix e até mesmo Mário Américo. Mais parecidos, menos parecidos, mais romantizados, menos realistas… Realmente, não importou. Fiquei empolgado e consumi todos os episódios em um única tarde, mesmo sabendo do final da história.

Mais uma vez, nem sempre conhecer o destino é mais importante do que a jornada que nos leva a ele. Talvez o grande trunfo da minissérie seja sua narrativa. Em vez de se apoiar apenas na nostalgia ufanista das jogadas geniais, o roteiro faz um mergulho nos bastidores da época. A produção equilibra o drama e o medo que cercavam os craques, divididos entre a genialidade exigida em campo e o peso psicológico de serem usados como ferramenta de propaganda política para o regime de então.

Brasil 70: A Saga do Tri humaniza os heróis de 1970. Longe de pintá-los como figuras infalíveis, a minissérie abraça suas vulnerabilidades, mostrando como jovens atletas lidaram com uma pressão internacional e nacional sem precedentes. É um retrato detalhado sobre o que significava representar uma nação inteira em um dos períodos mais sombrios e fraturados da história política brasileira.

Trilha sonora bem escolhida e um Marcelo Adnet soltinho vivendo um narrador fictício que é uma verdadeira colagem de vários estilos de locução. Ninguém melhor do que ele para a tarefa.

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