Poucas personagens femininas dos quadrinhos alcançaram uma trajetória tão duradoura quanto a de Supergirl. Criada para ampliar o universo do Superman, a heroína atravessou décadas de transformações editoriais, conquistou diferentes gerações de leitores e se tornou presença constante na televisão e no cinema. Agora, ganha uma nova versão cinematográfica interpretada pela jovem atriz Milly Alcock.
Supergirl surgiu no final da década de 1950, período em que as editoras de quadrinhos buscavam expandir o sucesso de seus personagens mais populares. A versão definitiva da personagem apareceu em 1959, na revista Action Comics #252, criada pelo escritor Otto Binder e pelo artista Al Plastino. Nessa história, os leitores conheceram Kara Zor-El, prima do Superman e sobrevivente do planeta Krypton. No Brasil, a personagem ficou conhecida por muitos anos como Supermoça, nome utilizado pela EBAL em suas publicações.
Kara Zor-El foi enviada ao espaço por seus pais quando uma parte de Krypton, a cidade de Argo, conseguiu sobreviver temporariamente à explosão que destruiu o planeta. Seu destino era a Terra, onde encontraria seu primo Kal-El, o Superman. No entanto, problemas durante a viagem fizeram com que ela chegasse anos depois, encontrando um primo já adulto e consagrado como o maior herói do planeta.
Durante os anos 1960, Supergirl tornou-se uma das personagens mais populares da DC Comics. Inicialmente vivendo em segredo em um orfanato e utilizando uma identidade discreta, a heroína gradualmente conquistou independência, passou a atuar publicamente e ganhou espaço em títulos próprios. Seu sucesso refletia também uma mudança social importante, com o crescimento da presença feminina entre os leitores de quadrinhos.
Nas décadas seguintes, a personagem passou por diversas reformulações. Uma das mais marcantes ocorreu em 1985, durante o evento editorial Crise Nas Infinitas Terras, quando a DC decidiu reescrever sua cronologia. Nessa saga, Supergirl foi sacrificada em uma batalha decisiva, em uma das cenas mais lembradas da história dos quadrinhos de super-heróis. Anos depois, novas versões da personagem surgiriam, até que Kara Zor-El retornou oficialmente ao universo principal da editora em 2004.
A primeira versão de Supergirl no cinema surgiu em 1984, quando Helen Slater vestiu o uniforme clássico. Contudo, a produção apresentou uma história fraca e não alcançou os resultados esperados nas bilheterias. No Brasil, o filme ganhou popularidade principalmente por meio das exibições na televisão aberta durante o final dos anos 1980.
Foi na série Smallville (2001) que Kara Zor-El finalmente ganhou o reconhecimento que merecia. Interpretada por Laura Vandervoort, a personagem apareceu a partir da sétima temporada, exibida originalmente em 2007.
Tudo mudou quando Melissa Benoist liderou a série Supergirl (2015), produzida pela Warner Bros. Television para a CBS. Posteriormente, a produção migrou para a CW, impulsionada pelo sucesso dos crossovers com The Flash e Arrow, consolidando o chamado Arrowverse. A série apresentou uma versão moderna da heroína, equilibrando ação, drama familiar e temas contemporâneos como identidade, inclusão e responsabilidade social.
Antes da versão que chega aos cinemas, Supergirl foi interpretada por Sasha Calle em The Flash (2023). Essa encarnação apresentou uma personagem mais intensa e marcada por experiências traumáticas, refletindo uma abordagem bastante diferente das produções anteriores. Quando James Gunn e Peter Safran assumiram o comando da DC Studios, o plano incluía não apenas um novo filme do Superman, agora interpretado por David Corenswet, mas também uma grande produção centrada em sua prima kryptoniana, que faz uma breve aparição em Superman (2025), interpretada por Milly Alcock.
Quem assistiu à série A Casa Do Dragão sabe que Milly Alcock interpretou a versão jovem da futura rainha Rhaenyra Targaryen. Parte dessa energia acompanha a atriz nesta produção dirigida por Craig Gillespie, conhecido por trabalhos como Eu, Tonya (2017), Cruella (2021) e a série Seus Amigos E Vizinhos (2025).
A Supergirl interpretada por Milly está longe das versões mais clássicas dos quadrinhos dos anos 1960 ou da retratada na série Supergirl. O público compreende seu comportamento rebelde quando o filme revela o passado da personagem ainda nos últimos momentos da civilização kryptoniana.
Sua relutância em assumir a Terra como novo lar a aproxima de uma adolescente que deseja aproveitar a vida sem amarras ou responsabilidades. É como uma herdeira privilegiada que não precisa se preocupar com moradia, contas ou compromissos e está sempre pronta para partir em uma nova aventura sem pensar muito no amanhã.
Tudo isso acontece porque, ao chegar à Terra e ser recebida pelo primo Clark, ela descobre seus poderes sob a luz do Sol amarelo. Para escapar do estilo de vida mais disciplinado do Superman, Kara utiliza uma nave espacial para visitar planetas iluminados por sóis vermelhos. Nessas condições, ela perde temporariamente seus poderes e pode viver experiências comuns, frequentar festas, beber e aproveitar a vida. Quando a ressaca chega, basta retornar a um planeta sob um Sol amarelo e recomeçar o ciclo.
Felizmente, o que poderia se transformar em uma espécie de Barrados No Baile com super-heróis tomou outro caminho. Os produtores decidiram adaptar uma das melhores histórias recentes da personagem nos quadrinhos: Supergirl: Woman Of Tomorrow (2021-2022), escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely.
A história é narrada por Ruthye, uma adolescente que deseja vingar a morte do pai, um armeiro assassinado por Krem. Ela conhece Kara em uma taverna de um planeta distante justamente quando a kryptoniana está comemorando seu aniversário – e bebendo bastante, claro.
No processo de ajudar a jovem, Kara entra em conflito com Krem, líder de um grupo de bandoleiros e responsável pela morte do pai de Ruthye. Como tudo acontece em um planeta sob um Sol vermelho, Supergirl está vulnerável e acaba ferida. Sua nave é roubada pelos criminosos, que também deixam Krypto, seu cão de estimação, à beira da morte. Para salvar o animal, Kara e Ruthye embarcam em uma jornada repleta de perigos por diversos planetas.
O roteiro escrito por Ana Nogueira segue de perto a estrutura da HQ. A principal diferença é que a busca por um antídoto para salvar Krypto serve como motor para mostrar a evolução pessoal de Kara. Aos poucos, ela abandona parte de sua postura impulsiva e passa a buscar sua própria redenção.
Mesmo para quem não leu os quadrinhos, a estrutura dramática do filme funciona muito bem porque combina ação e emoção sem interromper constantemente a narrativa para explicar os sentimentos dos personagens. A cena em que Kara presencia um assassinato cometido por Krem representa um dos principais pontos de virada da história.
O elenco também se destaca. Milly Alcock entrega uma interpretação intensa e convincente como Supergirl, enquanto Eve Ridley constrói uma Ruthye forte e emocionalmente envolvente. Há ainda a participação de Jason Momoa como o caçador de recompensas Lobo. Felizmente, o personagem acrescenta humor e energia à narrativa sem comprometer o desenvolvimento dramático da trama.
É importante destacar que este é um filme sobre uma grande personagem dos quadrinhos que recebeu uma interpretação marcante graças ao trabalho de Milly Alcock. Não se trata de uma produção cujo principal objetivo seja promover discursos de empoderamento. A presença de mulheres fortes no cinema existe há mais de um século, sustentada por personagens memoráveis e grandes atrizes. Ignorar essa trajetória seria desconsiderar uma parte importante da história do cinema mundial.
O fato é que, mais de seis décadas após sua criação, Supergirl continua sendo um símbolo de coragem, esperança e superação. De coadjuvante do Superman a protagonista de histórias próprias nos quadrinhos, na televisão e no cinema, Kara Zor-El construiu uma identidade única e permanece como uma das personagens femininas mais importantes da história dos super-heróis. O filme estrelado por Milly Alcock funciona como mais uma consolidação dessa trajetória.
