O longa-metragem Desejo em Manhattan (The Dutchman) adapta para as telas uma das obras mais contundentes do teatro norte-americano do século 20.
Para compreender sua profundidade é fundamental olhar para a sua origem nos palcos norte-americanos. O original teatral foi lançado em 1964 por Amiri Baraka (ou LeRoi Jones), um dos dramaturgos, poetas e ativistas políticos mais influentes do século 20 nos EUA. Escrito no auge do movimento pelos Direitos Civis, a peça de ato único tornou-se um marco do Black Arts Movement (Movimento das Artes Negras) e expõe a violência psicológica do racismo estrutural.
A narrativa original se passa inteiramente no interior de um vagão de metrô de Nova York, um cenário subterrâneo e claustrofóbico que funciona como uma alegoria do próprio mito do Holandês Voador (The Flying Dutchman), o navio fantasma condenado a vagar eternamente sem rumo.
Nesse ambiente isolado, o jovem intelectual negro Clay e a provocadora mulher branca Lula travam um embate verbal carregado de simbolismos. Conforme Lula ridiculariza as roupas elegantes e a postura educada de Clay, a peça desconstrói a ilusão da assimilação social, mostrando que a cortesia e a ascensão financeira de um homem negro não o protegem da hostilidade e da provocação de uma estrutura racista.
Agora, dirigido por Andre Gaines, o filme atualiza o texto de Amiri Baraka para construir um suspense psicológico claustrofóbico e com certa voltagem política. No filme, Clay (André Holland, de Moonlight) é um empresário negro de classe alta que desfruta de um padrão de vida confortável em Nova York. Seu casamento passa por uma crise meio velada, aparentemente resultado de uma traição.
É no metrô que Clay é conhece Lula (Kate Mara, de Mulheres Imperfeitas), uma bela e sensual mulher branca, enigmática e sedutora o bastante para fazê-lo embarcar em uma noite de sexo. Mas a que preço?
O que acontece a seguir é quase um pesadelo para Clay, algo que ameaça não apenas sua sanidade como sua sobrevivência.
Simbolismo é a melhor palavra para o espectador carregar consigo ao conferir Desejo em Manhattan. A estética caprichada, os diálogos afiados e a atmosfera “gato e rato” apenas nublam a visão para o que realmente importa. Uma crítica social, completamente pertinente ao momento que vivemos, bem necessária. Se não para a sociedade americana, já conhecedora do estilo de Amiri Baraka, para o mundo como um todo. Aparentemente em momento dormente quanto à temas como racismo estrutural, preconceito, assédio e outras mazelas registradas. Estreia no Filmelier+ em 6/8.
