Uma comédia romântica com toques de distopia. Parece estranho, mas combina bem com esses nossos tempos de ideias estranhas e mostra que o mesmo ponto de partida, o controle governamental sobre o corpo e o sexo, pode terminar em O Conto da Aia ou nesse longa bem menos sombrio.
O cenário é Nova York num país que três anos antes proibiu o sexo fora do casamento. Uma lei com tudo para ser uma daquelas que “não pegam”, afinal, como vigiar o que cada um está fazendo com cada outro em cada canto, se não fosse a tecnologia. Na realidade do filme, cada pessoa tem implantado um sensor que informa a polícia caso a pessoa resolva se dedicar a um rala e rola não autorizado. A lei, contudo, deixou uma brecha. Uma vez a cada ano, o sexo é liberado por um período de 12 horas, data que passa a ser mais comemorada que o 4 de julho. Se deu certo com a licença de 12 horas para matar em Uma Noite de Crime (2013), por que não tentar com romance?
Não há uma boa explicação para as pessoas não dedicarem os outros 364 dias do ano a conhecerem pessoas dignas dessas 12 horas. Mas, o que vemos é contagens regressivas e pessoas se atracando por toda parte. Menos Owen (Callum Turner, Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore), um típico cara bonzinho que pretende passar a noite com a namorada, Malika (Maya Hawke, Stranger Things). Ela, por sua vez, pretende passar a noite com o vizinho. A outra ponta da história é Allie (Monica Barbaro ,Um Completo Desconhecido), cantora com medo de palco que fica só quando a amiga rapidamente encontra um par com quem compartilhar as doze horas de sexo livre.
Ao longo da noite, Allie e Owen se encontram. E não apenas uma vez. São várias vezes em variados estados de ocorrências absurdas enquanto a trilha sonora vai desfilando Love is in the Air, All Night Glow, Payphone, All Out of Love e outras canções sobre o amor enquanto todo mundo só pensa em sexo.
Claro que a regra maior da comédia romântica tem de ser obedecida e sabemos que Allie e Owen estão destinados a ficar juntos não apenas uma parceria para doze horas de sexo autorizado, mas como um relacionamento de fato. A graça está no caminho e o longa oferece vários momentos divertidos, como o impagável garoto que a mãe paga cinco mil dólares para que a amiga de Allie cuide dele – e até um pouco de crítica política quando mostra o presidente – fictício – defendendo essa intrusão na vida íntima dos cidadãos em nome dos valores familiares.
Callum Turner está ótimo como o cara decente, o mesmo valendo para Monica Barbaro como a moça que mantém o romantismo vivo. Para completar, o filme está lotado de participações especiais, incluindo LeVar Burton (Star Trek: The Next Generation), Molly Ringwald (Clube dos Cinco), Bobby Cannavale (Scarpetta), Michelle Hurd (Star Trek: Picard), Andrew Burnap (Branca de Neve) e duas que aparecem apenas em fotos, Glen Powell e Sydney Sweeney. Num caso de “piscou – perdeu”, Powell aparece como o perfil no LindedIn do cara com quem a namorada de Owen pretende passar a noite, e Sweeney como uma das moças no app de namoro.
Uma boa opção para quem busca uma sessão de cinema leve e sem grandes discussões filosóficas. Quando chegar às plataformas, vai ser um daqueles para ser visto numa tarde de descanso.
