Uma das coisas fascinantes de Todos os Homens do Presidente (1976) é a forma como Alan J. Pakula construiu o filme baseado na investigação real que os jornalistas Carl Bernstein (Dustin Hoffman) e Bob Woodward (Robert Redford), do jornal The Washington Post, fizeram em 1972. A invasão do comitê do Partido Democrata no lendário prédio Watergate levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974. Tudo graças a dois jornalistas que investigaram a fundo as denúncias de interferência do governo federal no partido de oposição.
Mais do que um caso político, o livro, assim como sua adaptação para o cinema, foi baseado em fatos históricos, investigados e revelados à luz do dia. Na história do cinema, adaptações desse nível são importantes para tornar públicos fatos que o próprio pagador do ingresso não tinha a mínima ideia de que se tratava da própria História.
Pegue exemplos recentes que o público em geral não conhecia. Oppenheimer (2023), dirigido por Christopher Nolan, detalha a vida do físico J. Robert Oppenheimer na criação da bomba atômica. O relato brutal baseado na autobiografia de Solomon Northup, um homem negro livre escravizado ilegalmente, em 12 Anos de Escravidão (2013). Estrelas Além do Tempo (2016) mostra o trabalho de três matemáticas negras da NASA durante a Corrida Espacial nos anos 60. E, claro, o olhar de um jovem fotógrafo sobre o surgimento do crime organizado no Rio, em Cidade de Deus (2002).
Outras histórias que renderam grandes momentos do cinema vêm da Segunda Guerra Mundial: o cerco e a fuga dos soldados aliados em Dunkirk (2017); o médico membro do Exército americano que se recusou a usar armas em Até o Último Homem (2016); a história do matemático Alan Turing, que desvendou o código dos nazistas no filme O Jogo da Imitação (2014).
E agora Pressão, baseado no texto do dramaturgo inglês David Haig, de 2014. O filme é dirigido pelo australiano Anthony Maras, responsável pelo tenso Atentado ao Hotel Taj Mahal (2018). David estava fazendo uma pesquisa para uma peça sobre a história da Escócia quando descobriu o caso envolvendo o meteorologista James Stagg.
A trama acompanha a história real das tensas 72 horas que antecederam o Dia D na Segunda Guerra Mundial. O comandante das operações Aliadas, general Dwight D. Eisenhower (Brendan Fraser), quer que as condições climáticas estejam boas para que a invasão da Normandia traga uma vitória para as forças militares naquele momento importante da Segunda Guerra Mundial. E, para isso, convoca o capitão James Stagg (Andrew Scott), um dos maiores especialistas em condições do tempo, para fazer a previsão que mudaria o curso da História.
Para mostrar que a história do filme tem uma base sólida na realidade, em 1971, o livro de memórias do capitão Stagg relata, com detalhes, como esse lendário meteorologista confrontou outros especialistas em meio a previsões totalmente divergentes sobre o clima para o ataque aliado. Os relatórios secretos e as mensagens trocadas entre as bases foram abertos ao público pelo governo britânico e estão preservados no The National Archives.
Por isso, o que vemos na tela não é apenas o relato acurado do que foram aqueles momentos em Southwick House, o casarão utilizado como base secreta dos Aliados na costa sul da Inglaterra. É um tour de force entre duas ideias complexas sobre olhar para o céu e entender qual é o melhor dia para enfrentar os alemães na Normandia, para abrir o caminho para a derrota de Hitler e seus aliados.
De um lado, o tenente-coronel Irving Krick (Chris Messina), que estava na equipe de Eisenhower e acreditava que o dia 5 de junho seria o Dia D. Segundo seus estudos, baseados em outros eventos climáticos anteriores, o sol estaria presente, garantindo visibilidade para o ataque. Enquanto isso, Stagg afirmava que o tempo naquela região mudava constantemente e se opôs fortemente ao dia 5.
Em todo filme de guerra, especialmente os feitos sobre a Segunda Guerra, o drama é criado para mostrar ao público que nada foi fácil de enfrentar naquele momento da História da Humanidade. A segunda-feira, dia 5 de junho de 1944, começou com o sol indicando que Stagg estava errado ao convencer Eisenhower a não começar a invasão naquele dia. Quando o clima começa repentinamente a mudar para uma chuva torrencial, a pergunta para Stagg era: quando seria o Dia D?
Pressão é um filme que mostra o cenário da guerra, não como um duelo de egos, algo convencional na relação entre Stagg, Krick e mesmo Eisenhower. O filme mostra como a pressão de acertar um alvo considerado vital para a vitória contra o Mal é o personagem mais importante da trama. Ela pode ser entendida como uma questão atmosférica, pessoal e até mesmo moral. O fato, e isso é bem construído pela direção de Anthony Maras, é um personagem que permeia uma história que, felizmente, entrou para a história.
Um momento interessante é a invasão em si. Maras presta homenagem a dois grandes momentos do cinema, O Mais Longo dos Dias (1962) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), mostrando a chegada dos soldados aliados à Praia de Omaha. É o cinema entretendo e contando histórias reais sobre a nossa própria história.
Pressão estreia nesta quinta-feira, dia 3, pela Universal Pictures Brasil.
