Crítica | Filme | Quem Tem Medo?

Crítica | Filme | Quem Tem Medo?

Mais uma crítica pontual feita sobre um documentário brasilero que colocou o dedo na ferida em pleno período conturbado na recente história do país.

O longa fala por si só, deixa todos os elementos à vista… Vê apenas quem não virar o rosto. E, como sabemos, ao menos metade do país não apenas vira o rosto como ainda bate palmas. O problema aqui é onde rever…

“Quem Tem Medo? é uma obra atual e importante para o momento em que vivemos. Mais. É importante também para o que está por vir, ou seja, as eleições presidenciais.
Porque o espectador que assistir ao documentário e, digamos, não se solidarizar com as formas de arte ali registradas, fatalmente não apoiará mudança na administração federal.

Se outros, assim como eu, ficarem com o estômago virado ao ouvirem discursos preconceituosos, retrógados e terrivelmente evangélicos, o caminho será uma mudança.

Parece óbvio, mas não é.

O que mais temos testemunhado nos últimos anos é o desrespeito à diferença. Seja ela no campo que for. Não é mais uma questão de esquerda ou direita. O extremismo contaminou tudo e todos.

E todos sabemos que não há solução perfeita para essa polarização.
Nada é branco e preto. Existem muitas e muitas camadas de cinza entre as duas cores e é aí que habitamos.

Passemos à prática para que eu me explique melhor. Toda forma de arte e cultura deve existir. Como a lei máxima que rege as relações comerciais – a da oferta e procura –, é o público que determina o sucesso ou insucesso.

Claro que a crítica especializada tem papel nessa equação. Mas do que adianta eu ter publicado crítica desfavorável a determinado filme, se o público compareceu em massa ao cinema?

Isso teria relevância se o objetivo da crítica fosse decretar sucessos ou fracassos. Mas o papel da crítica é analisar, é emitir opinião sobre este ou aquele assunto. Preferencialmente, com boa argumentação.

Dizer que gostou ou não, qualquer um pode fazer. Como dizem, opinião e bunda todo mundo tem uma. A boa crítica, no entanto, perdeu espaço e foi sucedida por opiniões virais que visam números.

Voltando à prática, todas as manifestações artísticas registradas em Quem Tem Medo? são relevantes para a sociedade de maneira geral. Somos obrigados a comparecer aos espetáculos e sair falando bem? Não!

Mas também não somos obrigados a impedir que esses artistas se manifestem da maneira que for. Muito menos a frequentar esses espetáculos para confrontar esses artistas, exalar violência e agressividade na forma de palavras ou mesmo atirando pedras. Literalmente.

Deixemos o público decretar sucesso ou fracasso. Deixemos todos respirar. Na contramão das fortes imagens captadas em Quem Tem Medo?, por acaso algum espectador comum entrou no templo que fosse para xingar sacerdotes de pedófilos? Ou de assassinos? Creio que não.

Então, por que essa violência descabida, calcada na discordância e no total desrespeito à diferença? Por que Narciso acha feio o que não é espelho?

Quem Tem Medo? foi feito por pelo trio Dellani Lima, Henrique Zanoni e Ricardo Alves Jr., que compartilharam direção, roteiro e montagem. Eles inclusive conversaram com o CriCrítico Rogério Victorino em 1 de agosto para falar sobre o trabalho. Essa entrevista você acompanha ao final da crítica.

Basicamente, trata-se de uma colagem de farto material imagético colhido a partir de 2017, quando o governo federal começou a cercear a produção artística. Principalmente se as obras abordassem temáticas LGBTQIA+. Claro que artistas e performers passaram a sofrer censura maior na administração de Jair Bolsonaro.

O trio de realizadores começou a entrevistar esses artistas, acessou registros de algumas apresentações e os entrecortou com discursos de deputados e senadores em Brasília. Uns poucos, como Jean Wyllys, combatendo a truculência dos parlamentares das bancadas que apoiam a atual gestão. A maioria, no entanto, defendendo a tortura de performers, homicídio e medidas legais para calar qualquer manifestação que vá contra os valores defendidos por eles.

Os entrevistados são Wagner Schwartz (SP), Renata Carvalho (SP), Maikon K (PR), José Neto Barbosa (RN) e os membros das montagens de Caranguejo Overdrive (Aquela Cia de Teatro, RJ) e RES PUBLICA 2023 (A Motosserra Perfumada, SP).

Wagner Schwartz esbanja tremenda compreensão para com seus detratores, dizendo que consegue entender essas pessoas que têm medo. Porque os artistas costumam dizer coisas que assustam. Para ele a diferença é que essas pessoas atacam. Atacam e querem catequizar. Ou reza a cartilha em voga ou “vai apanhar com rabo de tatu”.

Já o realizador Henrique Zanoni destacou o crescimento da censura entre 2016 e 2018. Nesse período, “foram 16 casos de censura. Já nos três primeiros anos do Governo Bolsonaro, o número explodiu para 211 casos, sendo 72% realizados pelo poder executivo federal”. Ele acha que esse processo de “bolsonarização” veio para ficar. Tomara que não.

Dois pontos mais altos no documentário. A música de Arnaldo Antunes, O Real Resiste, brilhantemente colocada no fim. E as imagens reais do atentado à sede do Porta dos Fundos, quando supostos militantes Integralistas jogaram um coquetel Molotov na fachada.

Quem Tem Medo? estreia em 4 de agosto de 2022 no circuito nacional, com distribuição da Embaúba Filmes. Confira a seguir a entrevista.”

Deixe um comentário