Crítica | Filme | Sacrifício

Crítica | Filme | Sacrifício

O cenário, a gigantesca pedreira de Volakas, no norte da Grécia, seus salões brancos escavados em ângulos retos para a extração do mármore o lugar ideal para uma festa exclusiva. Objetivo, anunciar os planos de um bilionário para salvar o planeta da exploração desenfreada, abandonando a mineração de nossas áreas verdes e substituindo pela mineração no fundo do mar.

Sim, contém ironia. E não apenas contra bilionários cheios de discursos como também contra a cultura das celebridades e ainda dos ecoterroristas. Filho do combativo e politizado Costa-Gavras (Z), o diretor Romain Gavras tem pedigree para apontar o dedo crítico à hipocrisia de vários grupos. Infelizmente, o filme perde um pouco dos caninos ao longo da jornada, embora tenha alguns bons momentos.

Ente os pontos altos de Sacrifício está Chris Evans como Mike Tyler, um ator famoso que afundou a própria carreira após um surto durante a estreia de seu último filme. Apavorado com a perda dos cabelos e perseguido pelas cenas em que pilota um lança-chamas, ele comparece ao evento em busca de um recomeço e também de algum significado para sua vida e carreira. O outro ponto alto é a entrada de Joan (Anya Taylor-Joy), líder de um grupo de ecoterroristas que invade a festa, mas o faz no meio a aplausos dos convidados, certos de que o bando armado de fuzis é parte de uma performance. Uma cena perdida por Mike Tyler porque o ator está no banheiro. Sua entrada no salão onde os convidados já se transformaram em reféns é outro ótimo momento do filme.

Não há dúvidas dos alvos da crítica de Gavras, também roteirista ao lado de Will Arbery. O bilionário careca Ben Bracken (Vincent Cassel, Os Três Mosqueteiros: Milady) inspirado por sua esposa pop Gloria (Salma Hayek Pinault, Casa Gucci) é uma cutucada óbvia em Jeff Bezos. O radicalismo ecológico de Joan, que garante que o mundo vai acabar se três pessoas não se jogarem no vulcão de uma ilha vizinha – o sacrifício do título – tem toques de Greta Thunberg, não só no discurso, mas na conexão nórdica e na franjinha loira. O filme, no entanto, nunca vai fundo no ataque, passeando pela comédia enquanto ridiculariza a cultura das celebridades e a ecologia discursiva. Há momentos de real significado, como quando Mike Tyler respira fundo antes de se virar para um milhão de câmeras com um sorriso pregado no rosto. É possível ouvir o coro de “eles ganham muito, têm mais é que aceitar” enquanto percebemos o quanto pessoas que se tornam públicas e dependem do público para seu trabalho perdem o direito de dizer não e preservar qualquer minuto de privacidade. Num personagem que reflete sua carreira de super-herói do Universo Marvel, Evans se entrega à ideia de que talvez pular num vulcão seja uma boa ideia. Por seu lado, Anya Taylor-Joy é perfeita como Joan, tanto em sua crença de que é capaz de se comunicar com o vulcão, como quando dúvida.

O resultado é interessante e o visual é muito bem utilizado. O elenco, especialmente Anya Taylor-Joy e Chris Evans, está perfeito e o uso de sátira e comédia para tocar em pontos mais importantes não é ruim. Mas, parece que, no final, roteiro e direção não queriam entrar em conflito com os elementos que criaram.

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