Overman adapta para o cinema o personagem criado pela cartunista Laerte Coutinho e apresenta uma comédia brasileira que combina humor absurdo, conflitos pessoais e sátira política. Dirigido por Tomás Portella, o longa acompanha um super-herói com identidade própria, cuja aparência remete a figuras clássicas das animações, como Space Ghost e Birdman. Além das referências ao universo dos quadrinhos, a produção explora questões existenciais e as contradições de um protagonista que enfrenta dificuldades para encontrar seu lugar no mundo.
Interpretado por Caco Ciocler, Overman mantém a máscara mesmo nos momentos mais íntimos, inclusive dentro de casa, no banheiro e na hora de dormir. Apesar de possuir habilidades de super-herói, ele enfrenta crises emocionais e problemas financeiros. A oportunidade de mudar de vida surge quando o governador, vivido por Otávio Müller, oferece a ele um trabalho na Secretaria de Segurança Pública.
Nessa jornada, Overman conta com a companhia de Pâmela, a Mulher-Cachorro, interpretada por Karina Ramil. Contudo, a parceria passa por dificuldades quando ela começa a conquistar reconhecimento e espaço. O sucesso da colega desperta o ego e as inseguranças do protagonista, que precisa lidar com a possibilidade de perder o protagonismo que considera seu por direito.
A vida pessoal do herói também contribui para a construção da comédia. Apaixonado por Poline, personagem de Maria Lucas, ele ainda faz sessões de terapia com o psiquiatra Dr. Lights, interpretado por Raphael Logam. Essas situações revelam um homem cheio de contradições, que tenta conciliar suas responsabilidades com os próprios conflitos emocionais.
Um dos pontos positivos de Overman está nos diálogos e nas situações cômicas que sustentam a narrativa. A produção utiliza acontecimentos absurdos para abordar temas sociais e políticos, com referências às diferenças entre classes, às hierarquias e às relações de poder. Dessa forma, o humor funciona como instrumento de crítica, enquanto a caricatura expõe contradições presentes na sociedade brasileira.
A abordagem também estabelece paralelos com Birdman, filme dirigido por Alejandro González Iñárritu e vencedor do Oscar de melhor filme. Assim como a produção norte-americana, Overman explora as inseguranças de um protagonista em crise e sua busca por reconhecimento. Entretanto, o longa brasileiro direciona boa parte de sua sátira às estruturas políticas e às situações cotidianas, incluindo piadas sobre cartões corporativos e corrupção no Rio de Janeiro.
O filme também brinca com elementos conhecidos dos universos de super-heróis da Marvel e da DC, especialmente com referências ao Homem de Ferro e ao Batman. Essas aproximações ajudam a contextualizar o personagem, que se inspira em figuras populares dos quadrinhos, mas vive uma realidade distante da imagem grandiosa dos heróis norte-americanos. Assim, Overman constrói sua identidade por meio do contraste entre suas ambições e as limitações de sua vida cotidiana.
A narrativa reúne referências culturais e críticas sociais que se encaixam na proposta da comédia. O humor absurdo permite abordar questões relevantes sem abandonar as situações divertidas relacionadas às dificuldades do protagonista. Contudo, a força dessas ideias depende da maneira como cada piada se integra ao desenvolvimento da história.
Visualmente, Overman aposta em uma estética cartunesca, com destaque para as cores amarelo e vermelho. A direção de arte contribui para aproximar o filme do universo dos quadrinhos, enquanto os efeitos especiais seguem uma abordagem simples, sem buscar um espetáculo visual grandioso. Essa escolha combina com a proposta da produção e não compromete a construção de seu universo cômico.
A direção também recorre a planos fixos, planos de conjunto, primeiros planos e enquadramentos abertos para organizar as cenas e destacar as reações dos personagens. A linguagem visual acompanha o tom da narrativa e ajuda a estabelecer a identidade da comédia, sem depender de movimentos de câmera elaborados ou de efeitos visuais complexos.
Em suma, Overman encontra no humor absurdo uma maneira de discutir política, desigualdade, vaidade e crises existenciais. A adaptação de Laerte Coutinho apresenta um herói brasileiro distante dos modelos tradicionais do gênero, com problemas cotidianos e dificuldades para lidar com as próprias inseguranças. Ao combinar sátira social, referências aos quadrinhos e escolhas visuais que dialogam com a proposta, o filme constrói uma comédia que utiliza as contradições do protagonista para observar aspectos da sociedade brasileira.
