No início de 2026, fotos de uma fila de alpinistas a caminho do cume do Everest espantaram o mundo com 274 pessoas chegando ao topo da montanha num único dia. Fruto de condições climáticas favoráveis e o acúmulo de escaladores esperando a chance para chegar ao topo, a imagem, de certa forma, destruiu uma boa parte da mística da escalada da montanha. Afinal, se tanta gente consegue, não deve ser tão difícil como diziam.
O longa Tenzing recupera esse período em que chegar ao topo do Everest era um feito ainda inédito e quase mítico, a expedição britânica de 1953 que levou o neozelandês Edmund Hillary (Tom Hiddleston, Loki) e o nepalês Tenzing Norgay (Genden Phuntsok, Leopardo das Neves) a serem os primeiros a chegarem ao pico da montanha.
Inspirado pelo livro Tenzing: Hero of Everest, de Ed Douglas, o filme coloca o alpinista nepalês no centro da história que por muitos anos o viu apenas como apoio de Hillary. O roteiro vai à infância de Tenzing e um encontro fortuito com George Mallory (Johnny Flynn, O Soldado que Não Existiu), montanhista que participou de três escaladas mal sucedidas ao Everest. Parte do mito que cerca a montanha, Mallory foi visto vivo pela última vez em 1924 a cerca de 200 metros do cume, o que deixou dúvidas se ele e seu parceiro, Andrew Irvine, teriam chegado ao topo. Mas nem seus restos mortais, encontrados somente em 1999, responderiam à pergunta.
O marco de serem os primeiros continua, então, com Hillary e Tenzing que no filme aparecem fruto de culturas opostas. Para os britânicos, o Everest é um recorde a ser batido, uma vitória para a nação e sua nova rainha, a então recém-coroada Elizabeth II. Para Tenzing, a montanha sequer se chama Everest. Ela é Chomolungma, uma divindade de profundo significado espiritual com a qual ele mantem um relacionamento desde criança.
Tenzing e Hillary, no entanto, compartilham a mesma posição de outsiders. Mesmo sendo britânico, Hillary não é inglês, o que se revela com força quando o chefe da expedição, coronel Hunt (Willem Dafoe, O Farol) escolhe a dupla que deve tentar atingir o topo.
Estruturado de forma didática, com mapas e datas em tela, Tenzing tem o trabalho de criar tensão para uma história da qual já sabemos o final, e faz isso muito bem com imagens que diminuem os homens diante do gigantismo da montanha, o som do vento e visões de fendas sem fim diante de cada passo. Phuntsok dá à Tenzing o charme de um homem movido por uma grande força interior, para quem a montanha que os britânicos veem como uma adversária, é uma aliada, um ser com o qual ele tem de se unir para cumprir seu anseio de chegar ao topo. Experiente na direção de produções sobre montanhismo, Jennifer Peedom entrega imagens feitas in loco no Nepal e Nova Zelândia que frequentemente deixam o público se perguntando como é que foram filmadas.
Mas o principal, além de recuperar a importância de Tenzing, é reconstruir um momento em que chegar ao topo da montanha era algo realmente impressionante.
