Queer, filme que estreia em 12/12 distribuído pela Paris Filmes/MUBI, definitivamente é difícil de ser posto em palavras. Porque explora emoções o tempo todo e talvez mereça se mais sentido do que racionalizado. Como faço muitas vezes, evitei contato com previews, primeiras reações e mesmo matérias que analisassem, por exemplo, a performance do filme no último no Festival de Veneza. Lembro apenas de ter registrado que Daniel Craig ganhou o prêmio de Melhor Ator no National Board of Review. E que, em dado momento, algum jornalista perguntou ao ex-007 se ele imaginaria um Bond homossexual.
E até ver o filme na cabine da Paris estava relativamente desinformado, desprezando quase tudo que dizia respeito ao filme de Luca Guadagnino. Ele, um capítulo à parte por si só. Após o sucesso comercial e de crítica de Me Chame Pelo Seu Nome (2017), o diretor mostrou que um romance LGBTQIA+ sobre descoberta e perda não precisava apostar na sexualização ou na polêmica para concorrer ao Oscar. Claro, já que é para perturbar o espectador, que tal uma história visceral (literalmente!) mesclando romance com elementos de horror? Como a de Até os Ossosl (2022).
São apenas dois exemplos bem distintos, mas que resvalam em temas como desejo, identidade e relacionamentos complexos. E que ganham forma na telona graças a uma direção de arte meticulosa, que transforma cenários e figurinos em elementos narrativos. Sua estética é única e em Queer não é diferente.
Principalmente quando o personagem de Daniel Craig tem pesadelos ou está sob efeito de alguma substância química mais pesada do que as generosas doses de álcool que ele ingere indiscriminadamente. Ele é William Lee, um americano que trocou os EUA pelo México nos anos 1950 em busca de um pouco mais de liberdade. Afinal, segundo ele, sua orientação sexual e queda por heroína são consideradas crime na terra do Tio Sam. Cansado de alternar seus parceiros sexuais, Lee enxerga em Eugene Allerton (Drew Starkey) a possibilidade de um relacionamento mais pleno, com troca de carinho, amor e companheirismo.
Mais tarde, Eugene e Lee viajam rumo à América do Sul para tomarem contato com uma planta que, supostamente, estimula a telepatia: a yagé. Ou como a conhecemos no Brasil, ayahuasca.
A história de Queer, contada assim, parece bem curta frente as 2h17 de duração do longa. Engana-se quem espera ver cenas tórridas de sexo entre os personagens de Craig e Starkey. Elas acontecem, mas, apesar do filme se chamar Queer, o foco de Guadagnino, como já dito, são os relacionamentos, as angústias e as descobertas dos protagonistas. Nas palavras de Lee, “eu não sou bicha. Sou desencarnado”.
O filme é baseado no romance semiautobiográfico homônimo escrito por William S. Burroughs nos anos 1950 e que permaneceu inédito por décadas. O protagonista William Lee é alter ego de Burroughs, considerado um dos principais nomes da geração beat, movimento literário e cultural que surgiu nos EUA no mesmo período. Talvez seu trabalho mais popular no cinema seja Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991), também baseado em livro de sua autoria.
Dito isso, já é de se imaginar que Queer é pouco convencional na narrativa. E quando entra a ayahuasca em cena, então, seria adequado sugerir que o espectador apenas “sentisse” o que vê na tela, sem passar pelo filtro da razão. Em suma, não é para todos os gostos, mas tem suas qualidades cinemáticas. Daniel Craig (indicado ao Globo de Ouro) definitvamente deixou Bond para trás e mostra que tem recursos como ator. Guadagnino tem uma direção bem adequada para esse tipo de projeto. Não deve existir muita gente capaz de assumir o controle do filme sem explorar o óbvio.

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