Crítica | Filme | Cheiro do Diesel

Crítica | Filme | Cheiro do Diesel

Cheiro de Diesel, que estreia em 2 de abril com distribuição da Descoloniza Filmes, é um daqueles documentários que grita para o público. Ainda que traga à tona questões de um passado recente (supostamente resolvidas), o longa é um registro urgente e atual sobre o que aconteceu quando o Estado decidiu que a segurança pública deve ser tratada como guerra em solo nacional.

Lembra do Tropa de Elite, quando o Capitão Nascimento é incumbido de “pacificar” o Turano para a visita do papa de então ao Brasil? Pois bem, em Cheiro do Diesel, a “pacificação” visa a Copa do Mundo de Futebol.

O filme foca nos traumas deixados pelas ocupações das Forças Armadas no Rio de Janeiro, as famosas GLOs (Garantia da Lei e Ordem), que transformaram a Maré, a Penha e o Morro do Salgueiro em cenários de ocupação militar entre 2014 e 2018. A direção é assinada por Natasha Neri (premiada por Auto de Resistência) e Gizele Martins, jornalista comunitária da Maré que faz sua estreia na direção trazendo a vivência de quem sentiu o fuzil na porta de casa.

O que diferencia Cheiro de Diesel de outras produções sobre violência é a coragem dos depoimentos. Não se fala apenas de medo; fala-se de invasão de escolas, postos de saúde e, o ponto mais estarrecedor do roteiro, o caso de tortura em uma “sala vermelha” dentro de um quartel do Exército contra moradores da Penha. Gizele Martins, que também integra a Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), conduz as conversas com a autoridade de quem acompanhou o processo como jornalista e moradora.

A montagem não tenta suavizar o impacto. O rastro dos blindados (o tal Cheiro do Diesel) e o som constante da militarização servem para mostrar que, para muitos, a Copa do Mundo e as Olimpíadas não foram festa, mas sim o pretexto para um laboratório de repressão sob o governo de Michel Temer. Natasha Neri reforça no filme como o arcabouço jurídico brasileiro permite que essas violações sigam acontecendo, muitas vezes sem punição.

No meu caso, o que mais prendeu a atenção foi ver a luta desses moradores por reparação coletiva. É um cinema de resistência pura, produzido pela Amana Cine e Baracoa Filmes, em coprodução com o Canal Brasil. O ponto central aqui não é a vitimização, mas a denúncia de um sistema que usa a favela para testar táticas que jamais seriam aceitas no asfalto.

Se você busca um documento fiel e cru sobre a história recente do Rio, Cheiro de Diesel é obrigatório. É o grito de quem teve a vida transformada pelo ronco dos tanques e que agora exige ser ouvido nos tribunais e nas telas. Ah, e sem partido, ok?

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