Baseado no livro O Nazista e o Psiquiatra, de Jack El-Hai, Nuremberg resume o julgamento da alta cúpula nazista e o relacionamento entre o psiquiatra Douglas M. Kelley com Hermann Göring, figura mais importante entre os réus do julgamento por crimes contra a humanidade.
Como é esperado em qualquer filme baseado em fatos, algumas imprecisões acontecem no processo de condensar anos em minutos com a criação de cenas para conduzir a narrativa. Mas, é sempre necessário tomar cuidado com a escala dos erros. Se usar um lago que não existia em 1912 numa fala de Leonardo DiCaprio em Titanic tem pouca consequência, erros sobre uma questão importante como a Segunda Guerra Mundial devem ser evitados, ainda mais numa era em que boa parte do público toma boato como fato.
Então, vamos a alguns erros de Nuremberg:
- Os psiquiatras
O filme mostra Douglas Kelley (Rami Malek) como protagonista e Gustave Gilbert (Colin Hanks) como seu substituto e adversário. Na verdade, Kelley trabalhou durante os primeiros dois meses do processo e Gilbert agradeceu a ajuda do colega em seu livro, Nuremberg Diary. Os dois nunca foram adversários e Kelley deixou a Alemanha meses antes do julgamento.
- A rendição de Göring
O filme mostra Göring chegando de surpresa a um grupo de militares americanos para se render. Na verdade, a rendição foi negociada. No dia 7 de maio de 1945, o ajudante de Göring, coronel Von Brauchitsch, apresentou-se no comando da 36 ª Divisão do exército dos Estados Unidos com a oferta de levar os americanos até Göring. O general Robert I. Stack reuniu um grupo de soldados e seguiu por uma estrada da Áustria sinalizada por soldados alemães até o castelo Fischhorn. Como havia muita gente nas estradas, um jeep e um carro foram encontrar Göring e seu grupo para escoltá-lo até o castelo.
- A condenação
O filme deixa a impressão de que os 22 acusados receberam a pena de morte. Na verdade, três dos acusados foram absolvidos, 7 receberam penas entre 10 e 20 anos de prisão, três foram condenados à prisão perpétua e 12 executados, entre eles Göring, Joachim von Ribbentrop e Wilhelm Keitel.
- Cremação
Não é difícil encontrar fontes dizendo que os corpos dos nazistas foram cremados num campo de concentração, o que dá um certo gosto de vingança à história. Após o enforcamento, no entanto, os corpos foram cremados em Munique e as cinzas dispersadas. Segundo uma versão, as cinzas foram jogadas em um rio, enquanto outra informa que as cinzas foram jogadas de um avião num local não especificado.
- O encontro com Pio XII
A maior falha do filme é mostrar Robert Jackson chantageando Pio XII. O promotor jamais se encontrou com o papa. Além de fictícia, a cena mantém a ideia de que a Igreja Católica se calou ou pior, colaborou com o nazismo. Relatos e documentos, incluindo artigos publicados pelo Yad Vashem – Centro Mundial de Memória do Holocausto e Jewish Virtual Library, contudo, mostram que Pio XII atuou e coordenou ações como a emissão de certidões de batismo para mais de 80 mil judeus na Hungria e a criação de uma rota de fuga via Bulgária pelo então Núncio Roncalli, futuro João XXIII, além de ordenar que mosteiros e outras instituições abrigassem judeus em fuga. Avisos de líderes católicos após a invasão da Polônia de que declarações contra o nazismo pela Rádio Vaticano estavam gerando represálias violentas teriam levado Pio XII a preferir a ação ao discurso. Por outro lado, críticos apontam que um discurso forte poderia ter levado a um esforço maior de salvamento, numa discussão que certamente jamais terá fim. Mas que nunca envolveu o promotor do julgamento de Nuremberg.
