Antes de falar da segunda temporada de Demolidor: Renascido, vamos lembrar da importância do personagem para o que a Marvel construiu para o seu universo na telinha.
Para começar, a transição de Matt Murdock para o Disney+ foi cercada por uma desconfiança compreensível: seria possível manter o herói em alta após a bem-sucedida incurssão pela Netflix? No que tange a linha “familiar” adotada pela Disney… Afinal, havia porrada e sangue para todos os lados anteriormente.
Não sou especialista em quadrinhos, apenas curto alguns. E o renascimento do Demolidor nas páginas foi marcante para mim, com qualidade no traço, nos roteiros e – principalmente – nos diálogos. Particularmente, gosto de A Queda de Murdock, muito pelo trabalho de Frank Miller. O Demolidor brilhou para mim nessa época.
Embora a necessidade de conectar a trama a eventos maiores do UCM – como o rastro deixado pela série Eco – às vezes tire o foco da corrupção local, a série se sustenta pelo respeito ao material original. É um entretenimento que sabe ser “drama de rua”, fugindo das escalas cósmicas para focar no soco, no trauma e na lei. Para quem temia um Demolidor descaracterizado, o resultado final é uma redenção que prova que o herói de Hell’s Kitchen nunca esteve tão vivo.
Para quem acompanha o Demolidor nos quadrinhos seriamente, posso dizer que a segunda temporada de Renascido soa como uma música familiar, mas tocada em um tom muito mais pesado. O roteiro não esconde sua maior inspiração (segundo os especialistas, claro): o arco “A Escolha”, de Garth Ennis.
Após a consolidação da segunda temporada, o veredito é que Demolidor: Renascido conseguiu o que parecia impossível. Se o primeiro ano foi marcado por uma reintrodução cautelosa e um tom jurídico mais higienizado, a segunda temporada chega com o pé na porta, resgatando a brutalidade visceral que transformou o personagem em um ícone cult na década passada.
Tem as esperadas aparições de heróis como Justiceiro e Jessica Jones, ao lado do Tigre Branco e do Espadachim. Ah, claro, tem o Mercenário também…
O grande triunfo da série, entretanto, continua sendo o seu elenco protagonista. Charlie Cox (que recentemente estrelou a série Traição) mantém uma entrega física e emocional. Na segunda temporada a voltagem sobe de verdade com o retorno definitivo de Jon Bernthal como Frank Castle. O embate entre a justiça de Murdock e o método letal do Justiceiro recupera a profundidade moral que faltava em outras produções da Marvel, enquanto Vincent D’Onofrio (Nascido Para Matar) reafirma seu Wilson Fisk como o vilão mais substancial e imponente do Universo Cinematográfico Marvel atual.
Visualmente, a evolução entre as temporadas é nítida. Se no início a crítica apontou uma “higienização” excessiva e cortes rápidos demais, a entrada da equipe de direção vinda de Cavaleiro da Lua devolveu à série as coreografias de luta longas e impactantes. A fotografia abandonou o visual polido das produções tradicionais de heróis para abraçar novamente as sombras e o neon sujo de Nova York, criando uma atmosfera opressora que serve perfeitamente ao roteiro mais sombrio desta nova fase.
A justiça foi feita.
