O mar nunca ficou seguro novamente depois de 1975, quando Steven Spielberg botou o Bruce para funcionar. Pelo menos em Hollywood, claro!
Explorar esse medo coletivo que a humanidade tem de tubarões foi um golpe de mestre. Mas antes de Spielberg já existiam outros exemplares de tubarão perturbando, aina que timidamente o sono alheio.
Por exemplo, Killer Shark (1950), estrelado por Roddy McDowall (A Hora do Espanto original), foi um dos primeiros a focar na caça ao animal, mas o tubarão ainda era visto mais como uma “caça difícil” do que como um monstro vingativo. Teve também Ti-Koyo e seu Tubarão (1962), filme italiano que mostrava uma amizade entre um homem e um tubarão. Aqui ele é protagonista, mas no papel de “amigo”, longe da linha de revolta da natureza.
Ainda tivemos Shark! (1969), dirigido por Samuel Fuller e estrelado por Burt Reynolds. Este filme é famoso porque um dublê realmente morreu atacado por um tubarão durante as filmagens. O filme tenta usar o animal como ameaça central, mas ainda sob uma ótica de aventura e busca por tesouros.
Também muita água salgada rolou depois do Tubarão (Jaws) de 1975, inclusive com piranhas, orcas, bacanhau, barracuda e até mesmo um polvo gigante. Daria para ficar horas apenas puxando pela memória. Mas faça você uma pesquisinha no Box Office Mojo ou na IA para ter uma lista completa.
Não se esqueça da galhofa de Sharknado, obviamente, e todos aqueles Megalodons versus alguma coisa. De Godzilla (1973) a crocodilos.
Ataque Brutal (cujo nome em inglês é Thrash, vejam a ironia!), foi uma aposta da Netflix dirigida pelo norueguês Tommy Wirkola (conhecido por Noite Infeliz), que tenta trazer o subgênero de tubarões de volta ao suspense de sobrevivência sério. Estrou em 10 de abril, colocando o espectador dentro de uma cidade costeira americana devastada por um furacão de categoria 5, onde a inundação traz consigo um bando de tubarões-touro que transformam as ruas alagadas em um campo de caça mortal.
Um destaque do longa é Phoebe Dynevor (Bridgerton), que aqui abandona os vestidos de época para viver Lisa, uma mulher grávida presa em meio ao caos. Ao lado dela, o veterano Djimon Hounsou (Gladiador e Diamante de Sangue) vive o Dr. Dale Edwards, aquele personagem que vai explicando cientificamente o que está rolando. O elenco conta ainda com Whitney Peak (Gossip Girl), que se destaca no núcleo de sobreviventes adolescentes.
Tecnicamente, o filme acerta ao focar na cenografia de destruição. Wirkola utiliza bem o suspense de “o que está sob a água”, fugindo do excesso de CGI barato. No entanto, o roteiro – também assinado por Wirkola – não escapa de clichês do gênero e de momentos que flertam com o ridículo, especialmente em cenas que exigem uma suspensão de descrença absoluta sobre a biologia dos animais e a sorte dos humanos.
No fim das contas, Ataque Brutal é uma “sessão pipoca” honesta que cumpre o papel de fazer o espectador roer as unhas. Embora não tenha a profundidade de um clássico como Tubarão, ele se posiciona bem ao lado de sucessos recentes como Águas Rasas.
O legado de Tubarão: quando o mar ganhou um vilão
Como vimos, embora o cinema já explorasse os perigos do oceano décadas antes, foi em 1975 que o mundo conheceu o verdadeiro protagonista do terror marítimo. Tubarão (Jaws), a obra-prima de Steven Spielberg, não apenas apresentou um animal perigoso; ele criou um mito. Antes de 1975, filmes como Shark! (1969) tratavam o animal como um perigo incidental. Spielberg inverteu a lógica, transformando o tubarão em uma força da natureza imparável e calculista.
O impacto foi tão grande que alterou a percepção pública sobre a espécie e deu origem ao subgênero de “natureza contra o homem” que consumimos até hoje. Por falta de recursos técnicos (que simplesmente não existiam), Spielberg teve que usar um bólido mecânico chamado Bruce para expor mais a criatura ao público. E ela funcionou bem somente por duas semanas!
Isso aumentou o suspense (o mesmo ocorreria com Alien, posteriormente) do filme, ainda reforçado por uma trilha inesquecível composta pelo highlander John Williams. Elenco de primeira, texto impecável… Enfim, muita gente como eu nem banho de banheira queria tomar depois de assistir ao filme…
Se hoje temos produções como Ataque Brutal, é porque o modelo de suspense e o ponto de vista subaquático estabelecidos por Spielberg provaram que o medo do que não vemos sob a superfície é um dos sentimentos mais universais do cinema.
