Alma Negra: Do Quilombo ao Baile é o tipo de obra documental que promete história e entrega um arcabouço de cultura imersiva. Não poderia ser diferente já que o documentário é dirigido e roteirizado por Flávio Frederico, um nome que se destaca na indústria por seu olhar atento, detalhista e preocupado com as questões sociais do Brasil e sua memória cultural.
A forma dele de fazer cinema pode ser vista, por olhos desatentos, como uma mera expressão artística, mas ele a usa como ferramenta de crítica social e política. Quando falamos de direção de obras nacionais, o nome dele precisa estar na sua cabeça. De forma fluida e com uma maestria impecável, ele transita entre o documentário e a obra ficcional e isso foi muito bem feito em Boca (2010), assim como nesse novo longa.
O documentário começa de mansinho, envolvendo nossos ouvidos com música boa. Através dela somos conduzidos para uma jornada quase educacional. Pouco a pouco, vemos como a identidade negra foi construída no Brasil. Eu gostei muito do aspecto antigo de algumas cenas e de como elas contrastam com outras atuais.
Outro ponto que vale comentar é a linha do tempo dessa obra. É extremamente bem construída e linear, o que elimina qualquer tipo de confusão que possa haver entre o filme e quem está assistindo. Eu, pessoalmente, considero a linha do tempo em documentários um dos fatores que precisam de mais atenção. Pois o espectador depende dela para um bom entendimento dos fatos.
O âmago da trama é que, se o quilombo era o território físico da resistência contra a escravidão, o baile é o território simbólico de liberdade na contemporaneidade. O filme nos mostra que a cultura negra não apenas sobreviveu, mas se reinventou para ocupar espaços urbanos.
Um elemento muito bem aproveitado e explorado aqui, foi a música e a sensação de espanto que ela causa, pois geralmente estamos condicionados por uma cultura de massa a consumir gêneros e artistas internacionais. Ver como alguns deles surgiram eleva a autoestima nacional e gera uma apreciação ainda maior por certas canções e artistas brasileiros, sobretudo negros. Nessa parte do documentário, não pude deixar de ficar impressionada e orgulhosa simplesmente por ser brasileira.
Foi uma experiência um tanto engraçada assistir o momento em que eles começam a falar do samba. Logo me veio na cabeça o famoso meme da internet que diz “essa é pra quem é preconceituoso e diz que branco não pode cantar samba”.
Entendo que essa obra precisa ser analisada de uma forma muito cuidadosa. Ela é antropológica, ou seja, é necessário entrar na cultura para entender o peso desse filme. Que vai muito além do que ele se propõe a ser. Por isso, talvez esta crítica não seja capaz de transpassar a barreira entre a tela, o conteúdo e o espectador.
Aqui fica o meu convite para que você assista. Além de tudo o que já foi dito, tenho certeza que será belo aos olhos, pois a fotografia desse filme é muito bem feita por Carlos Alberto.
Alma Negra: Do Quilombo ao Baile, uma produção de Kinoscópio, estreia em 14/05 com distribuição da Synapse.
