Crítica | Filme | Surda

Crítica | Filme | Surda

Falar sobre o filme Surda (Sorda) exigiu bastante atenção. Não se trata de um longa-metragem comercial, de fácil assimilação. Ao contrário, é difícil de colocá-lo em palavras em uma crítica. Fui pensando apenas em adjetivos.

O primeiro, repetindo, seria difícil. Na direta proporção de relevante. Atual também. Para ontem, hoje e sempre. Enquanto qualquer tipo de deficiência isolar uma pessoa. E isso, sabemos, é estrutural, não muda na noite para o dia.

Como disse um ator brasileiro recentemente, como explicar uma lei de fomento à cultura para alguém que sequer entendeu a Lei Áurea?

Ao mesmo tempo, Surda é um toque em nossas vidas. Todas as vidas. A partir do registro do dia a dia de uma pessoa com deficiência auditiva em suas mais corriqueiras tarefas e aspirações.

Essa pessoa é Angela (Miriam Garlo, a primeira mulher surda a levar um prêmio Goya), que vive sua primeira gravidez ao lado do parceiro ouvinte, Hector (Álvaro Cervantes). Com direito a todos os desafios um casal enfrenta durante os nove meses e toda uma vida vindoura.

Angela, por exemplo, teme que sua filha nasça surda, algo que certamente dificultaria bastante sua inserção na sociedade. E olha que estamos em um país de Primeiro Mundo.

Mas até mesmo o relacionamento do casal ou a vida pré-escolar da menina exigem outros olhos do entorno. Então, não bastassem os problemas natos à maternidade, Angela ainda revive alguns outros, velhos conhecidos seus. Como voltar a usar aparelho de surdez para melhor conviver com as outras mães e mesmo com a filha.

Surda não faz uma denúncia escandalosa dos desafios enfrentados por uma pessoa com deficiência auditiva. Ele o faz de uma maneira corriqueira, diria até simples. Para tocar nos pontos-chaves de maneira direta, sem retoques cinematográficos ou pieguice.

Acho que serve para colocarmos a mão em nossas consciências, tentando localizar as situações em nossas vidas quando rimos de uma piada de surdo. Ou, querendo ou não, quando isolamos uma pessoa com deficiência apenas evitando falar com ela, por desconhecer Libras ou não permitir leitura labial.

Em tempo: Surda chega aos cinemas brasileiros em 14/5 distribuído pela Retrato Filmes. A Retrato comunicou que todas as sessões terão legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta.

É bom lembrar que a história é inspirada na protagonista Miriam Garlo e o filme foi roteirizado e dirigido por sua irmã, Eva Libertad.

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