Com uma camada extra de prestígio, o diretor Shi-Zheng Chen apresentou no Festival de Cannes o seu primeiro longa-metragem, Um Dia de Sorte em Nova York (Lucky Lu, 2025). A estreia mundial ocorreu em uma das seções mais competitivas do festival: a Quinzena dos Diretores, voltada para revelar primeiras obras inovadoras.
É um engano achar que o diretor surgiu do nada e foi direto para Cannes. Shi-Zheng Chen é responsável por outras obras importantes, como Closing Dynasty (2023) e Same Old (2022). Ele já é reconhecido por seu olhar cru, realista e profundamente empático sobre a comunidade asiática e a classe trabalhadora em Nova York.
Com esse currículo, vale destacar que o diretor também possui senso de humor. O filme começa com o protagonista Lu, um homem comum e sem grandes recursos, interpretado pelo aclamado ator Chang Chen (Duna, 2021), alugando um apartamento em Nova York para que sua família possa se mudar para lá.
A ironia que gera humor está no contraste entre o título e a cena inicial: apesar de se falar em sorte, o que vemos é justamente o contrário. A ambientação em tons de azul cria uma atmosfera triste, melancólica e apática, contrastando com a expectativa de um dia feliz. As coisas só pioram quando a bicicleta de Lu é roubada enquanto ele aguardava uma entrega, despertando empatia imediata pelo personagem.
Isso se deve, em grande parte, à composição da cena: embora seja ambientada em Nova York, a narrativa foca nas áreas mais marginalizadas, pouco retratadas pelo cinema convencional. Figurino e fotografia utilizam tons frios, aproximando o espectador da realidade vivida por Lu. Mas o que realmente convence é a atuação impecável de Chang Chen, que transmite com precisão frustração, injustiça e vulnerabilidade, tornando a experiência cinematográfica intensa e imersiva.
O filme também dialoga com a realidade contemporânea. Nova York continua sendo um destino clássico para imigrantes, e em 2025, o Serviço de Imigração Americana (USCIS) recebeu mais de 364.000 pedidos de asilo formais, sem contar os pedidos defensivos. O sistema enfrenta um fluxo intenso, resultando em mais de 2,4 milhões de casos pendentes. Muitos tentam atravessar barreiras legais em busca de uma vida melhor.
É nesse contexto que o filme se desenvolve. Lu faz parte da comunidade de imigrantes asiáticos de Nova York, que, embora minoria, representa uma força importante na cidade. Ele enfrenta desafios que vão desde um salário baixo até episódios de xenofobia e preconceito racial e étnico.
Ao longo da trama, o espectador acompanha essas experiências em 48 horas da vida do protagonista. A sensação predominante é de injustiça, pois, como qualquer pessoa, Lu tem sonhos e objetivos, constantemente esmagados pela realidade. Será que restará algum outro dia de sorte para ele?
Para descobrir, é preciso assistir ao filme. Felizmente, Um Dia de Sorte em Nova York estreou em 14/5 no streaming Filmelier+, distribuído pela Synapse.
