Crítica | Filme | No Rastro do Perigo

Crítica | Filme | No Rastro do Perigo

O movimento blaxploitation nasceu nos Estados Unidos nos anos 70, em meio às lutas pelos direitos civis e pelo fortalecimento do movimento Black Power. Esse momento da história americana teve um impacto cultural enorme dentro da indústria cinematográfica norte-americana. O gênero ajudou a criar novas estrelas negras, como Pam Grier, estrela de Coffy – Em Busca de Vingança (1973), e Richard Roundtree, astro de Shaft (1971), que também deu o Oscar de Melhor Canção para Isaac Hayes.

Com o tempo, essas produções começaram a ser incorporadas no cotidiano do público, não apenas nos Estados Unidos, mas em outras partes do mundo, já que seus enredos falavam de crime organizado, sexualidade urbana e dramas do cotidiano, como qualquer outra produção. É o que vemos nesse filme dirigido e estrelado por Michael Jai White.

O ator, conhecido por praticar artes marciais desde os 7 anos de idade, construiu uma sólida carreira desde que interpretou Mike Tyson no telefilme de mesmo nome para a HBO, em 1995. Também participou da adaptação do personagem de Todd McFarlane, Spawn – O Soldado do Inferno (1997), fez um mafioso no filme Atan – O Cavaleiro das Trevas (2008) e continuou atuando em filmes de ação, consolidando uma bem-sucedida carreira no gênero.

Por isso, não é surpresa que ele também assuma o comando de alguns de seus filmes, como é o caso de No Rastro do Perigo. Ao bom estilo dos filmes de 007, o filme começa mostrando que Jaxen, um ex-policial de Atlanta que virou investigador particular, enfrenta qualquer tipo de desafio, especialmente quando usa suas habilidades marciais como método de persuasão.

Se fossemos comparar com o personagem de Richard Roundtree no clássico Shaft, não seria uma comparação exagerada. O próprio Jai White parece se espelhar na personalidade de John Shaft quando vai conversar com Orlando Jones, que faz o dono de uma grande gravadora de música. Ele quer que Jaxen localize sua grande estrela de R&B, Jahari (Alani La La Anthoni), cujo contrato futuro vai render milhões de dólares.

Mas, como em toda história de sequestro e muito dinheiro, algo está muito claro nessa narrativa. Tudo começa com o surgimento de um grupo de asiáticos que, ao que tudo indica, tem ligação com o desaparecimento da cantora. Jaxen, por sua vez, começa a suspeitar que a crise gerada pelo desaparecimento de Jahari, que foi no passado seu interesse amoroso, pode colocar não apenas a estrela da música, mas todas as pessoas ao seu redor em perigo real e imediato.

A história lembra vários filmes do blaxploitation dos anos 70, como Cleopatra Jones (1973), Shaft (1971) e O Terrível Mister T (1972), fontes de inspiração do filme de Jai White, cujo título original, Trouble Man, é o mesmo do filme No Rastro do Perigo. Aliás, existe uma menção ao filme de 1972, numa foto onde estão Jaxen e o ator Robert Hooks, que interpretava o Terrível Mister T.

No Rastro do Perigo não é um filme perfeito. A história tem seus altos e baixos, mas a ação e as lutas coreografadas, mesmo dando a impressão de que Michael Jai White é imbatível, fazem a diferença. Na realidade, se Michael, como diretor, quis prestar uma homenagem não formal ao blaxploitation, não há dúvida de que seu objetivo foi alcançado.

Se você, leitor, tiver a oportunidade de ver alguns desses filmes da Era de Ouro do blaxploitation, verá que o que Michael Jai White fez em No Rastro do Perigo não é apenas uma homenagem. É também uma declaração de que o passado pode estar presente de diversas maneiras — e ele soube construir essa homenagem do jeito certo.

No Rastro do Perigo está disponível no canal de streaming Adrenalina Pura+.

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