A série A Coroa Perfeita deve perder uma de suas cenas mais importantes ou até mesmo sair das plataformas. O motivo é a controvérsia causada por elementos históricos usados nas cenas da série.
A princípio, A Coroa Perfeita não vai além de mais uma história romântica com que a produção coreana tem conquistado as mentes cansadas do público mundial. Ambientada em um universo paralelo em que a Coreia é uma monarquia constitucional, o enredo acompanha o romance entre Seong Huiju (IU, de Se a Vida te Der Tangerinas), uma chaebol, palavra coreana que define os riquíssimos herdeiros de grandes empresas familiares, e o príncipe Ian (Byeon Woo-seok), tio do jovem rei do país.
Além do romance, a série inclui uma dose de intriga palaciana e outra de competição empresarial entre Huijiu, que é filha ilegítima, e o irmão mais velho dela. O enredo, somado ao elenco tinha tudo para dar certo, e deu, com a série conquistando uma forte audiência na Ásia, América do Norte, Europa e América Latina.
A controvérsia sobre os elementos históricos usados na série de ficção, no entanto, surgiu logo após a estreia, mas ganharam força na cena do trono em que os oficiais gritam a palavra “cheonse” no lugar de “manse”. Historicamente, cheonse é uma referência a uma nação subordinada a outro reino. Outro elemento que chamou a atenção foi a coroa cerimonial do rei, que apresenta nove fios de contas no lugar dos doze fios que representam os soberanos independentes. Esses detalhes, mais as roupas usadas na cena relembram protocolos historicamente associados a países subordinados à China imperial. Uma crítica que está longe de ser vazia e que expõe o delicado equilíbrio geopolítico da região.
Ficção e realidade
Em comentário publicado pelo jornal The Korea Times, o historiador Choi Tae-sung criticou a série dizendo que a produção deveria destinar uma fração do cachê dos atores para a pesquisa histórica.
Outro professor de história citado pelo jornal, Seo Kyun-duk, apontou que a série poderia fornecer material para o Projeto Nordeste da China, uma pesquisa acadêmica conduzida pela Academia Chinesa de Ciências Sociais. Lançado em 2002, o projeto busca confirmar que o nordeste da China, incluindo os antigos reinos coreanos que ali se localizavam, sempre esteve sob o controle do Reino do Meio, termo como a China foi nomeada no século III.
Após cinco anos de pesquisas, o Projeto alegou que o antigo reino coreano de Koguryo fazia parte da China, o que, obviamente, causou forte reação na Coreia. Em 2004, após declarações de que Koguryo era uma antiga nação fundada por uma tribo minoritária chinesa, o vice-ministro das Relações Exteriores da China visitou a Coreia e os artigos sobre as conclusões do projeto foram retirados da internet, bem como uma placa instalada pela China nas ruínas de Koguryo que dizia que o povo daquele reino não compartilhava o mesmo sangue que o povo coreano. A China, no entanto, segue restaurando ruínas de outro antigo reino coreano e já publicou documentos que reivindicam o domínio da antiga China até o rio Han, na Coreia. Tal reinvindicação histórica, segundo o professor Song Ki-ho, da Universidade Nacional de Seul, citado pelo jornal The Chosun Daily, apoiaria uma suposta reivindicação chinesa de domínio sobre a Coreia do Norte em caso de alteração política na região.
Pedidos de desculpas e edição de cenas
Em resposta à controvérsia, IU e Byeon Woo-seok publicaram pedidos de desculpas em suas redes sociais. O diretor Park Joon-hwa também pediu desculpas em nome da produção. Em seguida, a emissora MBC informou que a cena da coroação, que acontece no episódio 11, será cortada. A ação segue uma primeira modificação com a exclusão da palavra “cheonse” tanto no áudio quanto nas legendas, alterada para “manse”. O corte total da cena deve acontecer em todas as plataformas, mesmo fora da Coreia.
O corte, entretanto, não encerrou a controvérsia. A Coroa Perfeita recebeu um prêmio no MBC Drama Script Contest, o que coloca a emissora no centro das acusações, com o público coreano exigindo desculpas formais da empresa por sua falta de cuidado na seleção da programação. Ainda não se sabe se a série será removida totalmente, mas há pressão nesse sentido e a emissora pode achar que esse é o caminho mais seguro para sair do imbroglio.
A Coroa Perfeita não é o primeiro caso de série ficcional envolvida em controvérsia histórica. Em 2020, O Rei Eterno recebeu críticas quanto aos símbolos usados para seu monarca de um universo paralelo em que a Coreia era um país unificado, mas acabou sobrevivendo com algumas explicações. No ano seguinte, foi a vez de Joseon Exorcist, série cancelada após dois episódios por críticas de distorção histórica.
Para o público ocidental, em especial brasileiros e americanos, que jamais testemunharam seus países serem invadidos por forças estrangeiras, as críticas de imprecisão histórica contra uma obra que se declara desde a primeira cena como ficcional podem parecer exagero. Para a Coreia, entretanto, trata-se de defesa da cultura e identidade nacional de um país que até poucas décadas vivia sob domínio estrangeiro. Fica o aviso para os próximos produtores buscarem o aval dos historiadores.
