Coprodução franco-polonesa de grande orçamento, o longa Chopin, uma Sonata em Paris (Chopin, Chopin!) estreia nos cinemas brasileiros em 28 de maio com a chancela da Synapse Distribution. Dirigido por Michał Kwieciński, o filme tenta desmistificar uma das figuras mais celebradas e incompreendidas da história da música: o compositor Frédéric Chopin.
Ambientado em uma Paris vibrante de 1835 (reparem nas locações e figurinos!), o longa acompanha o jovem prodígio polonês (Eryk Kulm) enquanto ele transita pelos luxuosos salões da aristocracia francesa, arranca elogios do próprio rei Louis-Philippe (Lambert Wilson, de Matrix Reloaded) e lida com as complexidades de seus relacionamentos com o pianista Franz Liszt (Victor Meutelet) e a escritora George Sand (Josephine de La Baume). Tudo isso sob a sombra implacável de um diagnóstico de tuberculose que dita o ritmo acelerado de sua urgência criativa.
O grande acerto da direção de Kwieciński talvez tenha sido fugir do velho clichê do “poeta sofrido e frágil do piano”. Em vez de pintar Chopin como uma estátua ambulante que apenas profere frases profundas olhando pela janela, o filme o retrata como uma figura magnética, uma espécie de “superstar” ou estrela do rock de sua época. O roteiro se apoia fortemente em registros históricos e cartas para revelar um homem sarcástico, espirituoso, que adorava imitar os colegas, frequentava a boemia noturna e usava o carisma social como uma máscara para proteger seu profundo introwertismo.
Como era de se esperar, o trabalho de Eryk Kulm é a alma do filme. Premiado por sua atuação, o ator passou por uma preparação intensa e meticulosa de quatro meses isolado nos Alpes, praticando o francês e as próprias peças ao piano. Esse esforço transparece em uma interpretação enérgica que equilibra a euforia das festas com o desespero e o pavor da mortalidade iminente. Visualmente, a produção é um desbunde técnico, como foi mencionado: a recriação da Paris oitocentista (rodada em grande parte na arquitetura histórica de Bordeaux) entrega um contraste poderoso e lúdico entre a opulência dos palácios e a crueza das ruas assoladas pela epidemia de cólera.
Apesar dos predicados estéticos e da condução inteligente da trilha sonora (que evita o melodrama piegas e a manipulação emocional barata), o roteiro talvez se estenda demais em subtramas e no retrato naturalista e doloroso da decadência física de Chopin provocada pela doença, o que por vezes arrasta o ritmo da produção. Outra ressalva frequente é o fato de o relacionamento crucial com George Sand não ganhar o aprofundamento psicológico que merecia, funcionando em certos momentos apenas como uma nota de rodapé histórica.
Chopin, uma Sonata em Paris afasta-se das cinebiografias tradicionais de Hollywood ao abraçar o drama psicológico de um gênio correndo contra o tempo. Ao equilibrar comédia ácida, melancolia e um respeito profundo pela música, o longa entrega uma experiência elegante e autêntica, tanto para os amantes da música clássica quanto para os fãs de dramas históricos.
