Crítica | Filme | Copan

Crítica | Filme | Copan

Há poucos meses, a administração do Edifício Copan informou que o cinema existente no local está passando por uma reforma, que colocará o espaço novamente entre as principais salas de cinema de São Paulo. Uma notícia interessante para aquele que já foi considerado um dos mais arrojados projetos de Oscar Niemeyer, inspirado no Rockefeller Center, de Nova York, reunindo residências, comércio e um hotel em pleno centro da cidade.

Ao longo das décadas, desde o início das obras em 1952 até sua inauguração em 1966, o Copan se transformou em um dos cartões-postais de São Paulo e em referência mundial da arquitetura modernista brasileira. O edifício apareceu em filmes, documentários, livros e ensaios fotográficos, tornando-se também um símbolo cultural da cidade. Com todas essas qualificações históricas, esse edifício que abriga cultura, comércio e habitação acabou se transformando no personagem central do documentário Copan, que chega aos cinemas esta semana.

Assinado pela cineasta Carine Wallauer, a produção deixa de lado a estrutura de um documentário convencional, com imagens rebuscadas e depoimentos dos envolvidos, para acompanhar como testemunha ocular a vida dentro deste histórico lugar. É quase como ver um álbum de fotografias em movimento de tudo o que envolve o Edifício Copan, que sempre foi visto como um dos maiores símbolos da modernização de São Paulo – uma gigantesca “cidade vertical” idealizada para representar o futuro urbano brasileiro.

A relação de Carine Wallauer com o edifício ajuda a explicar o tom intimista do documentário. A cineasta morou sete anos no Copan, experiência que lhe permitiu circular pelos corredores, apartamentos e bastidores administrativos do prédio com enorme proximidade dos moradores e funcionários. Em vez de construir um documentário tradicional baseado apenas em entrevistas, Wallauer aposta na observação cotidiana, registrando conversas, assembleias, elevadores, corredores e pequenos conflitos que revelam diferenças sociais profundas entre os habitantes daquele espaço.

Carine acompanhou o cotidiano dos moradores durante dois processos eleitorais simultâneos: a disputa presidencial brasileira entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, em 2022, e a eleição interna para síndico do próprio prédio, cargo ocupado há mais de trinta anos pela mesma administração. O resultado é um retrato social que transforma o Copan em microcosmo das tensões políticas, econômicas e ideológicas do país.

Visualmente, o longa reforça a monumentalidade do edifício. A câmera percorre corredores intermináveis, janelas, áreas de serviço e apartamentos extremamente diferentes entre si, revelando como o Copan abriga múltiplos “Brasis” dentro da mesma estrutura de concreto. Ao mesmo tempo em que há moradores de classe média intelectualizada, artistas e profissionais liberais, também aparecem trabalhadores, funcionários do prédio e pessoas vivendo em situações econômicas bastante distintas.

É importante dizer que não se trata de um documentário que vai esclarecer todas as dúvidas sobre a obra arquitetônica. É provável que, em determinado momento, você comece a questionar os motivos que levaram uma ex-moradora a contar a história de um prédio paulistano. É exatamente por isso que Copan tem seu mérito. Mesmo com uma linguagem que lembra clássicos do cinema experimental europeu, o cotidiano do Copan é único e histórico, assim como qualquer organismo que viva e pulse em São Paulo. São essas razões pelas quais vale a pena conhecer o trabalho de Carine Wallauer.

O reconhecimento internacional do filme reforça essa leitura. Copan foi selecionado para o Festival Internacional de Documentários de Copenhagen (CPH:DOX), um dos mais importantes eventos do gênero no mundo, além de vencer a competição nacional do festival É Tudo Verdade em 2025. O júri destacou justamente a capacidade da obra de transformar conflitos cotidianos em síntese poética das contradições brasileiras.

No fim, o documentário de Carine Wallauer amplia o significado histórico do edifício criado por Niemeyer. Se o Copan nasceu como símbolo otimista da modernidade brasileira nos anos 1950, o filme mostra como aquele mesmo espaço hoje reflete as fragilidades, polarizações e desigualdades do Brasil contemporâneo. O filme começa com uma bela imagem geral do prédio e termina da mesma maneira com a noite paulistana. O Copan deixa de ser apenas ícone arquitetônico para se tornar espelho social de um país inteiro. Estreia em 28/5 distribuído pela Vitrine.

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