Crítica | Filme | A Vida Secreta de Kika

Crítica | Filme | A Vida Secreta de Kika

A Vida Secreta de Kika (Kika, 2025), é uma coprodução internacional (Bélgica/França) dirigida e roteirizada por Alexe Poukine junto com o co-roteirista Thomas Van Zuylen. O drama passou pelo Festival de Cannes durante a Semana da Crítica, dedicada à descoberta e promoção de novos talentos. A diretora do longa é conhecida por possuir uma trajetória artística muito rica, o que impacta e molda diretamente a identidade visual e a narrativa de suas produções.

Alexe Poukine é formada em antropologia (Etnologia), fotografia e artes dramáticas, além de ser atriz. A maioria de suas produções são do gênero drama/estudo de personagem, o que confere um teor antropológico às suas obras. Com todo esse arcabouço, essa diretora tem características específicas que vemos de maneira muito clara nesse longa e também em Who Cares (2024).

O filme acompanha a vida da personagem principal, Kika (Manon Clavel, Winter Palace), que de forma repentina torna-se viúva e mãe solo. Ao longo da trama, vemos como a sobrevivência após o falecimento de seu parceiro e a maternidade vão, pouco a pouco, esgotando-a. Para sobreviver, ela recorre a maneiras mais rápidas e inusitadas de ganhar dinheiro.

É constrangedora a progressão dos fatos na vida de Kika. Esse constrangimento fica evidente em algumas cenas, na própria personagem. Faz-se necessário enaltecer o quanto a atuação pode convencer o espectador de estar vivendo a vida junto com ela. Morando de favor, sem ter dinheiro e sendo mãe, Kika ainda tem uma outra surpresa no meio do caminho. No entanto, não parece possível sentir pena da personagem. Ao mesmo tempo que entende-se seu esgotamento, ele é justificado por suas ações ou pela falta delas. Dessa forma, toda a empatia que poderíamos sentir é destinada a quem não tem culpa de nada e sofre ainda mais: a filha mais velha. Órfã de pai e com uma mãe praticamente ausente, essa criança cresce sob os cuidados de seus supostos avós maternos.

Um elemento negativo do longa é não deixar clara a relação interpessoal entre os personagens. Como a trama escolhe focar na vida de Kika, parece que os roteiristas supuseram que não era necessário deixar claro o nível de parentesco ou mesmo as relações que compõem a vida da personagem. Diante disso, Kika fica meio “crua” nesse aspecto aos olhos do público e que prejudica o entendimento do desenrolar dos fatos ao longo do filme.

Mas, se você gosta de obras complexas que abordam diferentes questões reais ao mesmo tempo, esse filme faz isso muito bem. Além da temática principal, as secundárias são tão importantes quanto. É como se, ao longo da narrativa, várias reflexões fossem provocadas na mente do público. E umas delas é a sexualização do corpo como fonte de renda.

Em uma cena, a protagonista vende uma peça de roupa íntima junto com seus fluídos corporais. Isso pode remeter à recente polêmica envolvendo a atriz Sydney Sweeney (Euphoria), que promoveu a venda de sabonetes que supostamente haviam sido feitos com a água de seu banho. A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Eis a questão.

O fato é que cabe ao espectador tirar suas próprias conclusões. A Vida Secreta de Kika estreou no streaming em 21/05, exclusivamente na plataforma Filmelier +. O longa é uma distribuição Synapse.

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