Crítica | Série | Spider Noir

Crítica | Série | Spider Noir

Se existe uma teoria do dominó para explicar a nova série Spider Noir, que acabou de estrear no Prime Video, ela começa com a primeira peça nos anos 60, na Marvel Comics. Antes de Steve Ditko e Stan Lee criarem o amigo da vizinhança, o Homem-Aranha, em 1962, o editor Harry Steeger, da Popular Publications, publicou as primeiras aventuras do vingador mascarado conhecido como o Aranha. Durante o dia, Richard Wentworth era um ex-militar da Primeira Guerra Mundial que, com o dinheiro herdado da família, decidiu ajudar os menos afortunados, assumindo o papel de justiceiro conhecido como o Aranha.

O personagem, criado para alimentar o mercado faminto de literatura pulp fiction, acabou ganhando as telas em 1938, no seriado de ação batizado no Brasil como O Aranha Negra, interpretado por Warren Hull. Ele enfrentava o Sr. Octopus, líder do submundo do crime em Nova York, com planos de dominação total da cidade e dos Estados Unidos. Três anos depois, a Columbia Pictures, produtora do seriado, lançou A Volta do Aranha Negra, agora enfrentando um sabotador nazista.

Foi dessa fonte de inspiração que os roteiristas David Hine e Fabrice Sapolsky, com arte de Carmine Di Giandomenico, criaram o Homem-Aranha Noir. A série de quadrinhos surgiu na Marvel em dezembro de 2008, mostrando Peter Parker vivendo em Nova York durante a Grande Depressão da década de 30. Nesse universo, a cidade é dominada por corrupção, mafiosos e políticos violentos, enquanto Peter assume uma postura mais brutal e pessimista do que a versão clássica dos anos 1960.

Antes de chegar à produção de Spider Noir, é importante mencionar que outra fonte de inspiração foram as histórias do Aranha escritas por David Liss e com arte de Colton Worley, publicadas em 2012 pela Dynamite. A dupla presta homenagem ao personagem original de Harry Steeger, mantendo o clima noir e a luta contra a corrupção em Nova York.

A série Spider Noir representa uma das apostas mais ousadas recentes do universo Marvel no streaming. Produzida pelo Prime Video em parceria com MGM+ e Sony Pictures Television, a produção mergulha o Homem-Aranha em uma atmosfera inspirada pelos clássicos filmes noir dos anos 1930 e 1940, misturando investigação policial, tragédia pessoal e estética expressionista.

Assim como aconteceu com a animação Batman: Cruzado Encapuzado (2024), que não foi lançada pela HBO Max, dona da DC Comics, o projeto do Homem-Aranha Noir não foi pensado para o Disney+, dono da Marvel Studios. Estrelada por Nicolas Cage, a série acompanha Ben Reilly, um investigador particular envelhecido e marcado por perdas emocionais, veterano da Primeira Guerra Mundial. Ele tenta sobreviver em uma Nova York decadente, dominada pela corrupção e pelo crime organizado.

No passado, ele foi conhecido como Spider, um vigilante mascarado que abandonou sua identidade heroica após uma tragédia pessoal. Porém, ao investigar uma série de conspirações ligadas à máfia da cidade, o personagem é forçado a confrontar o passado e retomar o manto do herói. Nota do autor: o fato de não traduzirem Spider como Aranha, tanto nos diálogos quanto no título da série, indica falta de atenção à versão nacional, que é importante para o público local.

O grande diferencial de Spider Noir está justamente em sua linguagem visual. A série foi lançada em duas versões: uma totalmente em preto e branco – evocando diretamente o cinema policial clássico – e outra colorida, com tons altamente saturados e estilizados. A direção homenageia produções do gênero noir, utilizando sombras pesadas, fumaça, becos úmidos e personagens moralmente ambíguos para construir um ambiente sombrio e melancólico.

Além do clima investigativo, a produção explora o lado mais humano e cansado do herói. Diferente das versões tradicionais do Homem-Aranha, aqui o protagonista se aproxima dos detetives clássicos do cinema, como os interpretados por Humphrey Bogart, carregando culpa, cinismo e um forte senso moral. O resultado é uma abordagem mais adulta e introspectiva do universo Marvel.

Outro ponto de destaque é o envolvimento da equipe criativa ligada à animação de 2018, Homem-Aranha No Aranhaverso. Os produtores Phil Lord e Christopher Miller ajudaram a desenvolver a série ao lado dos diretores Oren Uziel e Steve Lightfoot, expandindo o conceito do Aranha Noir apresentado nas animações do Aranhaverso, de forma mais realista e contemplativa.

Nicolas Cage é o principal destaque do elenco. Ele remete, em vários momentos, ao trabalho de Christopher Reeve como Clark Kent em Super-Homem: O Filme (1978). O trauma da guerra faz o personagem esconder a dor da perda de uma grande paixão, com cinismo e ironia – características clássicas de detetives do cinema noir, como Humphrey Bogart em À Beira do Abismo (1946). Ao seu lado estão Lamorne Morris (The New Girl), interpretando o jornalista Robbie Robertson; Li Jun Li (Pecadores), como o novo interesse amoroso do herói mascarado; e Brendan Gleeson (Mr. Mercedes), no papel do líder do crime organizado em Nova York, Silvermane, conhecido como Cabelo Prateado.

Mais do que uma simples adaptação de quadrinhos, Spider Noir funciona como um encontro entre o cinema policial vintage e o universo contemporâneo dos super-heróis. A série transforma o Homem-Aranha em uma figura trágica e solitária, cercada por corrupção, violência urbana e dilemas morais – elementos que aproximam a produção tanto das HQs pulp quanto dos clássicos filmes de detetive de Hollywood.

São oito episódios intensos, com um personagem construído peça a peça ao longo de décadas. Não é uma série de ação tradicional; é uma série de detetive, na qual o protagonista reluta em retomar o que o destino lhe reservou após ganhar seus poderes de aranha. Pensar antes de agir. Mas, quando age, prepare-se para se surpreender.

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