Existe um grande debate hoje sobre o uso da inteligência artificial. É um debate exagerado, já que a premissa é que o uso da IA vai acabar com a criatividade, com o pensamento, com a prática de elaborar qualquer coisa etc. Ninguém entendeu que a IA é um instrumento que precisa da mente humana para dar o primeiro passo, seja para criar uma linha de produção numa indústria, desenvolver equipamentos ou, claro, criar textos. Só para deixar claro, o texto que você está lendo é da IN – Inteligência Natural do autor.
Na ficção científica, a inteligência artificial está geralmente ligada a um evento maligno, no qual as máquinas “inteligentes” lutam contra a humanidade. Temos bons exemplos como Colossus: The Forbin Project (1970), quando um supercomputador decide que os humanos devem ser dominados e, para isso, se une ao seu correlato soviético. Ou em Geração Proteus (1977), quando a IA deseja ser pai, criando condições para engravidar uma humana. Temos ainda as máquinas inteligentes de O Exterminador do Futuro (1984) e os androides rebeldes da série Westworld (2016), da HBO.
São os mexicanos que trazem uma nova visão da IA com a intrigante e ambiciosa série Futuro Deserto, lançada pela Netflix, na qual o drama psicológico dá o tom às reflexões sobre o uso da inteligência artificial. Criada pelos irmãos Lucía Puenzo e Nicolás Puenzo, a produção transforma temas contemporâneos como luto, solidão e dependência tecnológica em um contexto intimista e inquietante.
Ambientada em um futuro próximo, a série acompanha Alex (José María Yazpik), um psicólogo organizacional que se muda com os filhos para uma região isolada no sul do México após a morte da esposa, interpretada por Karla Souza, conhecida por seu trabalho em Como Defender Um Assassino. No novo ambiente, ele passa a conviver com María (Astrid Bergès-Frisbey), uma androide criada para substituir emocionalmente a figura materna da família. Conforme a máquina começa a demonstrar sentimentos inesperados e comportamentos cada vez mais humanos, a relação entre tecnologia e afeto se torna perigosamente instável.
A produção utiliza a ficção científica como ferramenta para discutir emoções humanas profundas. Diferentemente de obras tradicionais sobre rebeliões robóticas ou guerras tecnológicas, já citadas anteriormente, Futuro Deserto prefere explorar o vazio emocional deixado pela perda e a tentativa humana de preencher esse espaço artificialmente. Ela está mais próxima de dramas sensíveis como Ela (2013) e de episódios emocionalmente complexos de Black Mirror do que do androide assassino de O Exterminador do Futuro.
O melhor exemplo dessa discussão está exatamente no primeiro episódio, quando um casal em luto pela morte da filha pequena decide levar para casa um AMBI (Agente Não-Biológico Inteligente), produzido por uma corporação fabricante de androides humanoides, que se parece e tem a voz da filha perdida. A ideia de preencher o vazio da perda acaba se transformando em um pesadelo real quando o casal percebe que a ilusão não ajudou a cicatrizar as feridas do luto.
Visualmente, a série aposta em uma estética minimalista e melancólica. Cenários áridos, paisagens vazias, iluminação fria e ambientes silenciosos reforçam a sensação constante de isolamento emocional. Mesmo o magnífico cenário da região de Chiapas, no sul do México, parece ter sido colocado ali para facilitar a ilusão dos envolvidos. O deserto do título não funciona apenas como espaço físico, mas também como metáfora para o esgotamento afetivo vivido pelos personagens em uma sociedade cada vez mais automatizada.
O principal destaque do elenco é Astrid Bergès-Frisbey no papel da androide María. A atriz constrói uma personagem simultaneamente delicada e perturbadora, mantendo uma ambiguidade constante entre máquina programada e consciência emocional genuína. Essa dualidade se torna o centro dramático da história, especialmente quando a série passa a questionar o que realmente define a humanidade.
Com apenas seis episódios em sua primeira temporada, Futuro Deserto se destaca como uma obra importante dentro da ficção científica produzida fora de Hollywood. A série demonstra como o gênero pode ser utilizado para discutir temas profundamente humanos sem depender de grandes efeitos especiais ou batalhas grandiosas. Algo próximo ao que os russos fizeram em Better Than Us (2018), na qual androides fazem parte do cotidiano da vida na Rússia.
Mais do que uma história sobre androides, Futuro Deserto funciona como uma reflexão melancólica sobre memória, ausência e a dificuldade humana de lidar com a dor. Ao colocar máquinas emocionalmente complexas em um ambiente marcado pelo isolamento e pelo vazio, a série cria um questionamento sobre até que ponto a tecnologia pode substituir conexões humanas reais e quais seriam as consequências emocionais dessa substituição.
Se esse é o futuro da IA, a história ainda não começou na realidade…
