Crítica 2 | Filme | Dia D

Crítica 2 | Filme | Dia D

Desde Encurralado (1971), telefilme sobre um motorista solitário perseguido por um misterioso caminhão em uma estrada deserta, o nome de Steven Spielberg começou a se consolidar em Hollywood como o de um jovem e criativo cineasta. Depois veio Tubarão (1975), confirmando o que muita gente já suspeitava: ele sabia como construir qualquer tipo de emoção dentro da tela do cinema.

O diretor conquistou o Oscar com os dramas da Segunda Guerra Mundial A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), além de acumular diversas indicações ao prêmio ao longo da carreira. Sua obra mais recente, Dia D, demonstra, na prática, aquilo que muitos de seus detratores não conseguem enxergar: a capacidade de transformar uma ideia simples em um épico de ação, drama e emoção pura.

O resumo da história poderia ter saído de um episódio de Arquivo X ao apresentar a tentativa de uma grande corporação de impedir que venha à tona uma realidade ocultada por ela e por governos do mundo inteiro: não estamos sozinhos no universo. O filme, contudo, não acompanha a luta dos agentes Mulder e Scully para revelar a existência de uma conspiração global envolvendo extraterrestres. Ainda assim, os dois personagens principais parecem, inicialmente, versões saídas da clássica série de TV.

Essa impressão começa a desaparecer nos primeiros minutos, quando o dr. Daniel Kellner, interpretado pelo britânico Josh O’Connor, conhecido por trabalhos como The Crown, escapa de um grupo liderado por Noah Scalon, chefe da multinacional que deseja impedir que Kellner revele ao mundo a existência de vida alienígena na Terra. Brilhantemente interpretado por Colin Firth, vencedor do Oscar por O Discurso do Rei (2010), Noah está longe de ser um vilão típico dos filmes de aventura. Ele é um articulador que não mede esforços para garantir que a verdade permaneça escondida.

Do outro lado está Margareth Fairchild, apresentadora da previsão do tempo de uma emissora de Kansas City, em mais um grande momento da carreira de Emily Blunt. Ela entra nessa corrida pela verdade durante um café da manhã com o namorado Jackson, vivido por Wyatt Russell. Após um cardeal-vermelho entrar em sua casa, Margareth começa, inesperadamente, a falar russo com o companheiro. É o primeiro de vários momentos em que percebe que algo estranho está acontecendo com ela.

Enquanto a história é construída emoção após emoção, Spielberg e seu amigo e roteirista David Koepp, responsável por roteiros como Jurassic Park (1993), interrompem a narrativa em alguns momentos para discutir a questão da fé. Sem aprofundar excessivamente o tema, o diretor sugere que tudo o que acontece com os protagonistas, especialmente quando estão juntos, vai além de uma simples trama de ficção científica.

Além do arco dramático sobre a revelação da presença alienígena na Terra há mais de 70 anos, existe também um debate entre heróis e vilões sobre as consequências globais dessa verdade escondida por décadas. O Dia D do título nacional remete ao desembarque das tropas aliadas na Normandia durante a Segunda Guerra Mundial. Já o título original, D Day – Disclosure Day, faz referência ao “Dia da Revelação”, momento em que todos os segredos envolvendo os extraterrestres finalmente vêm à tona.

É claro que, para chegar a esse momento decisivo, o público acompanha grandes perseguições, revelações sobre o passado de Margareth e Kellner e, claro, diversas pistas que deixam evidente qual é a verdadeira proposta do filme. Spielberg constrói aqui um épico diferente de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e Taken (2002), produções em que os segredos permaneciam ocultos nas sombras. Desta vez, a ideia é afirmar, sem rodeios, que realmente não estamos sozinhos.

Spielberg não quis fazer apenas um filme sobre heróis e vilões. Quando os créditos começam a subir após a cena final, fica a sensação de que o espectador testemunhou algo próximo de uma premonição. O diretor reúne informações, teorias e clichês clássicos do gênero para transformá-los em uma reflexão sobre fé – não a fé em uma divindade salvadora, mas na possibilidade de que uma revelação dessa magnitude faça a humanidade perceber que, independentemente de cor, gênero ou raça, todos dividimos o mesmo planeta e talvez existam vizinhos cósmicos interessados em nos conhecer.

Dia D funciona, assim, como o testemunho de um cineasta que já transitou por todos os tipos de realidade e fantasia. Alguém que chegou a um ponto da carreira em que o próximo passo parece ser lembrar que o cinema ainda pode ser um espaço para discutir grandes ideias sobre o futuro da humanidade. Quanto tempo ainda teremos de esperar para que essa realidade seja revelada continua sendo uma pergunta sem resposta… por enquanto.

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