Com estreia em 11/6, o documentário brasileiro BuenosAires, dirigido por Tuca Siqueira, chega aos cinemas com o frescor de quem sabe olhar para o Brasil profundo com poesia e sem preconceitos. O longa da Garimpo Filmes (com distribuição da Arthouse Distribuidora) se consolida como uma crônica visual delicada e profundamente interessante.
A produção se passa na Zona da Mata de Pernambuco, a apenas 79 km do Recife, em uma pequena cidade de 13 mil habitantes chamada Buenos Aires. O que poderia ser apenas uma piada geográfica ou uma coincidência nominal transforma-se, pelas lentes de Siqueira, em um estudo de caso afetivo: sem qualquer registro histórico da passagem de portenhos pela região, os moradores criaram uma conexão simbólica com a Argentina que transborda em casas pintadas como o Caminito, idolatria a Messi e referências ao Boca Juniors.
O acerto técnico e narrativo de Tuca Siqueira é batizar sua obra de “documentário paisagem”. Flertando constantemente com os limites da fabulação e da ficção, a câmera constrói uma atmosfera que caminha entre o realismo e o sonho. A narrativa, guiada inicialmente pelo olhar de uma professora de espanhol local, ganha contornos de crônica social viva ao registrar a rotina do município durante a Copa do Mundo de 2022 e a chegada mítica de um argentino real como novo morador da cidade.
BuenosAires projeta uma imagem complexa e esteticamente rica do Nordeste. O longa rompe de forma frontal com os velhos e desgastados estereótipos cinematográficos de fome, seca e miséria extrema na Zona da Mata. Em vez disso, entrega cor, festa, a pulsação do Maracatu Estrela Dourada e a dignidade de quem projeta no imaginário de um país vizinho os seus próprios desejos de pertencimento e graça.
Como bem define a própria diretora (que tem em seu currículo obras fortes como Amores de Chumbo e A Mesa Vermelha), o documentário funciona quase como um ato político de resistência pelo afeto. É a teimosia em manter o direito de sonhar em meio a realidades sociais que tantas vezes tentam podar essas aspirações.
Se há um ponto de atenção para o grande público que busca narrativas tradicionais, é que o longa se recusa a entregar respostas fáceis ou explicações sociológicas definitivas de como essa conexão começou. O filme prefere o registro das texturas, dos silêncios, das contradições urbanas e dos jogos de futebol locais. É um cinema de observação amoroso e sem pressa.
BuenosAires é um achado. Ao sintonizar a paixão do futebol com a cultura popular pernambucana, Tuca Siqueira consegue a proeza de fazer o espectador rir da maravilhosa excentricidade humana e, logo em seguida, se emocionar com a urgência de uma frase que ecoa durante toda a projeção: “Haverá distâncias entre o que se quer ser, e o que se pode ser”.
