Steven Spielberg está de volta ao campo que o transformou num nome essencial na filmografia de toda uma geração, ou de várias, o tema do contato entre os habitantes da Terra e seres de outros planetas. O mesmo de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e ET – O Extraterrestre (1982), porém com menos doçura, embora ainda repleto de momentos de assombro.
Ambientado no presente de um planeta à beira do caos geopolítico de uma crise envolvendo a Coreia do Norte e armas nucleares, D-Day explora a ideia bastante discutida de que o governo americano há décadas esconde o que sabe sobre a existência de vida em outros planetas. O assunto ganhou impulso recentemente com a liberação pelo governo americano de dezenas de arquivos sobre o tema que trocou de sigla, passando de UFO – objetos voadores não identificados, OVNI em português, para UAP – fenômenos anômalos não identificados.
É essa transparência que move Daniel (Josh O´Connor, The Crown), que foge do trabalho em uma empresa ligada ao governo levando provas sobre o assunto e um objeto de origem desconhecida. Enquanto isso, a jornalista Maggie Fairchild (Emily Blunt, O Diabo Veste Prada) tem seu trabalho como garota do tempo interrompido por uma súbita afasia seguida de desmaio. No lado inimigo, Noah Scanlon (Colin Firth, O Discurso do Rei) chefia o projeto que analisa os contatos e, acima de tudo, e mantém toda a informação – e principalmente, a tecnologia – em segredo.
Como esperado, o que se segue é uma tradicional perseguição, com a turma que quer manter segredo correndo atrás de Daniel e os dados que ele pretende divulgar a todo o planeta. Não faltam fileiras de carros pretos cheios de homens armados dotados de uma estupidez incompatível com a poderosa empresa que os contratou, e outras várias incongruências – soldados da Coreia do Norte portando celulares entre elas- que tiram a parte do público que presta um pouco mais de atenção e é um pouco mais bem informada de dentro da ficção.
O ponto central do enredo, no entanto, é o que mais chama a atenção em sua fragilidade e na seriedade com que Spielberg o trata, a ideia de que a comprovação de que não estamos sós no universo vai abalar a Terra a tal ponto de que tudo vai mudar. Ex-postulante à freira, a namorada de Daniel, Jane (Eve Hewson, Jay Kelly) está certa de que os humanos perderão a fé e passarão a ver os alienígenas como seres superiores, uma bobagem de proporções colossais que deixa de lado não só a profundidade do que é ter fé como a multitude de crenças espalhadas pelo planeta. Chefe do plano de transparência total que levou Daniel a surrupiar os documentos que o próprio governo americano já vem liberando, Hugo (Colman Domingo, Euphoria) tem um pouco mais de coerência ao condenar os maus-tratos que vêm ocorrendo contra os extraterrestres, obviamente uma referência à questão migratória.
Referência, aliás, é o que não falta em Dia D, incluindo a cena da criança caminhando ao encontro de alienígenas e outros elementos de trabalhos anteriores de Spielberg somados a toques de Intriga Internacional (1959). Tudo isso culminando, estranhamente, no ponto onde tudo começou, a emissora onde Maggie espantou a todos pronunciando sons estranhos – isso não é spoiler, está no trailer – que, claro, são uma linguagem extraterrestre. E nenhuma explicação do porquê Hugo e seu grupo simplesmente não liberam a informação online e precisam levá-la à TV. Estaria Spielberg lembrando que a mídia tradicional ainda tem mais credibilidade no quesito noticiário do que o ambiente online repleto de conteúdo baseado em fontes da cabeça de alguém?
No meio disso tudo, Josh O´Connor se sai bem como o cara lutando contra grandes forças, mas é Emily Blunt que brilha como Maggie, tanto na forma como assume as habilidades que começa a ter, como nos pontos mais dramáticos. Se deixada de lado a ideia um tanto infantil de que descobrir que extraterrestres são reais faria algum governo desse pequeno ponto azul no espaço deixar de ambicionar poder e o território alheio, o filme funciona naquilo que Speilberg faz bem, liderar o público de um momento de espanto a outro, a torcer durante uma fuga ou observar a barra de upload de um arquivo segurando o fôlego e querendo que tudo dê certo para o lado certo. Estreia em 11/6 distribuído pela Universal.
