Janeiro de 1996. Varginha deixava de constar nos jornais por sua forte produção de café e entrava para o embate não sobre a possibilidade matemática de haver outros planetas habitados na vastidão do espaço, mas sobre habitantes desses planetas hipotéticos visitarem a Terra. Mais especificamente, o interior de Minas Gerais.
O Caso Varginha, que dominou as manchetes na época e reaparece com frequência em séries como De Carona com os Ovnis ou Esquadrão UFO, no History, e até fez a cidade mineira ganhar uma estreia de Alien: Romulus, voltou à primeira página com o lançamento do novo longa de Steven Spielberg. Durante uma entrevista ao Fantástico, o diretor de Dia D relatou que uma das versões que ele acompanhou do caso, diz que representantes do governo americano vieram ao Brasil para levar duas criaturas que estariam em poder do exército brasileiro.
O relato do diretor, no entanto, encontra eco no trabalho de uma jornalista que cobriu o caso.
O dia em que tudo mudou em Varginha

No dia 20 de janeiro de 1996, segundo jornais da época, três garotas afirmaram ter visto uma criatura de cerca de 80 cm de altura encostada no muro de uma oficina. No dia seguinte, um domingo, houve uma intensa movimentação no Hospital Regional, o que continuou na segunda-feira. Os “seres” encontrados teriam sido transferidos para o Hospital Humanitas, enquanto a movimentação incomum seguia no Hospital Regional. Ao mesmo tempo, uma grande quantidade de automóveis de fora invadiu a cidade nesses tempos em que as placas informavam o município de origem dos veículos.
Outros efeitos também foram relatados. Um garoto que teria visto os bombeiros capturando duas criaturas teria parado de falar. O mesmo teria ocorrido com uma senhora também testemunha da captura. No dia 26, os moradores da cidade falavam que a criatura seria operada no Hospital Humanitas.
O que começou, no entanto, como uma onda de boatos, ganhou contornos de mistério quando a sequência de testemunhos começou a ser analisada com mais cuidado. Segundo esses relatos, a cronologia começava no dia 13, quando um professor disse ter visto a queda de uma nave do tamanho de um microônibus. No dia 20, perto da uma da manhã, um caseiro e sua esposa disseram der visto um objeto esfumaçado seguindo em direção à Varginha. Mais tarde, por volta das 8h30, testemunhas relataram que os bombeiros capturaram uma criatura e a entregaram numa caixa a um caminhão do exército que a levou para a Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações.
Em seguida, perto das 13h, um homem relatou ter visto um grupo de militares fazendo buscas num eucaliptal no bairro Jardim Andere. Ele relatou ter ouvido três tiros e os militares deixando o local com dois sacos, sendo que um deles se movia.
É por volta das 15h30, que as meninas Liliane, Valquíria e Kátia veem a criatura estranha junto ao muro da oficina. Algum tempo depois, uma senhora chamada Vera relatou ter visto uma criatura de perto quando saiu para fumar no Zoológico de Varginha. Às 17h30 dois militares chegam ao terreno onde as meninas viram a criatura e um deles, Marco Eli Chereze, teria capturado um ser estranho que foi levado ao hospital. Dias depois, em 15 de fevereiro, Chereze morreu de infecção generalizada.
Foi essa multiplicidade de relatos em horários e locais diferentes que mudou o nome do livro da jornalista Margarida Hallacoc para o plural. Autora de Os Ets de Varginha: Bastidores de uma cobertura de outro mundo, Hallacoc trabalhava na sucursal local do jornal Hoje em Dia quando ela seguiu para Varginha para investigar o que estava acontecendo.
Entre a natural desconfiança da profissão e da ideia de que seres de outro planeta tivessem aportado em Minas Gerais, e o temor de militares, médicos e autoridades de serem ridicularizados como gente que viu disco voador, Hallacoc verificou que pessoas do Japão, Estados Unidos e mais especificamente da NASA estiveram hospedadas na região.
A cultura cafeeira explicaria facilmente a presença de estrangeiros em Varginha, mas não de pessoas da agência espacial. O que combina com a declaração de Spielberg e apimenta ainda mais o Caso Varginha, que já tinha ganho um novo capítulo em janeiro desse ano, quando o médico Ítalo Venturelli, que trabalhava nos hospitais da região na época dos relatos declarou ter visto o vídeo de uma cirurgia feita por outro médico em uma criatura com crânio em forma de gota e ter guardado segredo por medo de que afetasse sua carreira.
Enquanto isso, oficialmente, a Escola de Sargentos das Armas negou qualquer envolvimento nos fatos. E um inquérito militar concluiu que as garotas na verdade viram um morador local conhecido como “mudinho”.
Faltava a conexão hollywoodiana para ficar igual a Roswell, a cidade que até hoje lucra por ter sido local onde uma nave espacial teria caído. Spielberg resolveu o problema.
