Crítica | Filme | Departamento Q: Sem Limites

Crítica | Filme | Departamento Q: Sem Limites

Desde os anos 1990, o público ocidental passou a olhar para os países nórdicos para entender como eles produzem mistérios e suspenses policiais tão densos. Especialmente em histórias que parecem inspiradas nos grandes escritores do gênero, como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Dashiell Hammett e Raymond Chandler. A grande diferença está na forma de contar a história, em uma estrutura na qual nada é exatamente o que parece e a solução costuma estar em pistas que passam despercebidas até pelos observadores mais atentos. Lembra o que Sherlock Holmes costumava dizer sobre a solução de um crime: quando você elimina o impossível, o que resta, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade.

Na realidade, a estrutura básica do Nordic Noir está ligada aos cenários frios e às paisagens isoladas típicas daquela região, criando ambientes mais realistas e fotografias sombrias. Isso favorece a construção de narrativas mais lentas e detalhadas. Os crimes investigados revelam problemas estruturais da sociedade, colocando a crítica social em destaque. Além disso, os investigadores, por mais competentes que sejam, carregam traumas e fragilidades emocionais que influenciam diretamente suas jornadas.

Foi com uma surpresa inesperada que assisti a Departamento Q: Guardiões das Causas Perdidas, lançado em 2013. O filme apresenta o inspetor Carl Mørck, interpretado por Nikolaj Lie Kaas, um policial talentoso transferido para o recém-criado Departamento Q após uma operação terminar de forma trágica para sua equipe. Essa foi a primeira adaptação cinematográfica da série de livros criada pelo dinamarquês Jussi Adler-Olsen.

O Departamento Q é a versão dinamarquesa do que os americanos costumam chamar de casos arquivados. Naquele que parece ser o fim de sua carreira, Carl conhece Assad, interpretado por Fares Fares, que se torna muito mais do que um simples assistente, já que conhece boa parte dos casos esquecidos pela polícia. É Assad quem sugere reabrir a investigação sobre o desaparecimento de Merete Lynggaard, uma influente parlamentar desaparecida há cinco anos durante uma viagem de ferry. O caso, inicialmente tratado como suicídio, revela uma trama de sequestro e vingança cuidadosamente planejada. O longa estabelece os principais personagens da série e define o tom sombrio que marcaria toda a franquia.

Após o primeiro filme, Nikolaj Lie Kaas voltou ao papel em Departamento Q: O Ausente (2014), Departamento Q: Uma Conspiração de Fé (2016) e Departamento Q: Em Busca de Vingança (2018). Agora, quem assume o papel do investigador Carl Mørck é Ulrich Thomsen, conhecido por séries como Banshee e pelo filme O Enigma De Outro Mundo (2011). O ator também interpretará Sinestro na futura série Lanternas. Thomsen estrelou Departamento Q: O Efeito Marco (2021) e o recente Departamento Q: Sem Limites (2024).

Ao longo de seis filmes, Departamento Q construiu uma identidade própria dentro do gênero policial europeu. Cada produção apresenta um caso independente, mas a evolução dos personagens, especialmente da parceria entre Carl Mørck e Assad, cria uma narrativa contínua que recompensa os espectadores que acompanham toda a série. Com histórias que abordam corrupção política, violência de classe, fanatismo religioso e injustiças históricas, a franquia se consolidou como uma das adaptações literárias mais bem-sucedidas do cinema escandinavo contemporâneo.

Após Departamento Q: Em Busca de Vingança, houve uma reformulação significativa. Os produtores optaram por seguir adaptando os livros com um novo elenco. O papel de Carl Mørck passou para Ulrich Thomsen, Afshin Firouzi assumiu o papel de Assad e Sofie Torp passou a interpretar Rose.

A história começa com uma enigmática imagem do corpo de uma jovem sobre uma árvore, em uma planície da ilha de Bornholm, há 17 anos. É para lá que segue a detetive Rose, a pedido de Carl, que acabou de ficar noivo e não deseja encontrar o detetive Christian Habersaat, interpretado por Peter Mygind, um antigo desafeto. Ao chegar à delegacia da cidade, Rose descobre que Christian está se aposentando. Após tentar conversar com ele sobre o caso da garota encontrada na árvore, Christian inicia um discurso sobre vida e trabalho e termina tirando a própria vida com um tiro na cabeça.

A chocante cena leva Carl e Assad à ilha para dar suporte a Rose, que ainda tenta compreender o que aconteceu. Para piorar, o chefe da delegacia não permite que Carl e seus colegas iniciem qualquer investigação sobre o caso da garota na árvore, arquivado como acidente de trânsito, por mais estranho que isso pareça. Ao mesmo tempo, Carl descobre indícios de que uma comunidade religiosa pode estar ligada ao caso, especialmente quando surgem revelações devastadoras sobre o próprio passado.

Assim começa esse intrigante mistério que, em um primeiro momento, parece envolver forças sobrenaturais. Na realidade, essa cortina de fumaça serve para disfarçar as pistas que Carl, Rose e Assad vão conectando ao caso da jovem morta. Conforme a investigação avança, surgem ligações inesperadas com acontecimentos ocorridos anos antes, revelando uma conspiração muito maior do que se imaginava.

Departamento Q: Sem Limites mantém a tradição da franquia ao misturar mistério criminal, crítica social e drama psicológico, explorando o impacto dos traumas coletivos em comunidades isoladas. Durante a investigação, surgem fortes indícios de que a morte da garota pode estar ligada a um culto místico de adoradores do sol presente há anos na ilha. E não apenas isso: outras mulheres desapareceram ao longo desse período e também faziam parte da mesma comunidade.

É um mar de suspense e tensões emocionais, construído a partir de situações aparentemente comuns que, graças ao trabalho criativo de Jussi Adler-Olsen, formam uma trama na qual a violência contra as mulheres vai muito além de qualquer simplificação ideológica. Em todos os filmes adaptados da obra do escritor dinamarquês, não existem sociedades perfeitas, como frequentemente se imagina ao falar dos países nórdicos. Assim como em outras nações ocidentais, há corrupção, desigualdade, violência contra mulheres, xenofobia e falhas no Estado de bem-estar social.

Talvez seja justamente por causa desses elementos que descobrir quem matou e os motivos por trás do crime seja apenas uma parte de uma história elaborada que prende o leitor – e, claro, o espectador – do começo ao fim.

Departamento Q: Sem Limites está disponível no Looke. Já Departamento Q: O Ausente (2014), Departamento Q: Uma Conspiração de Fé (2016) e Departamento Q: Em Busca de Vingança (2018) podem ser encontrados no Prime Video. Departamento Q: O Efeito Marco (2021) está disponível no Filmelier.

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