Crítica | Filme | Franz Antes de Kafka

Crítica | Filme | Franz Antes de Kafka

Aos que esperam uma biografia “arroz com feijão” de Franz Kafka, um aviso: esse filme não é para você.

Dirigido pela polonesa Agnieszka Holland, de Zona de Exclusão (2023), 1983 (2018) e House of Cards (2013), Franz Antes de Kafka é tudo menos linear, cronologicamente organizado ou explicativo sobre a vida do escritor.

O longa, que é o candidato da Polônia ao Oscar de melhor filme internacional, de fato inclui informações biográficas, como a vida de Kafka em Praga com a família judaica, o pai, Hermann, empresário, a mãe, e as irmãs. Também estão lá seu emprego numa seguradora e sua amizade com Max Brod, escritor como Kafka e que recebeu do amigo instruções para queimar seus trabalhos não publicados, pedido que Brod desobedeceu, levando rascunhos, diários e textos consigo quando deixou Praga em 1939, já ocupada pelos nazistas, rumo ao então Território da Palestina.

Esses dados biográficos, no entanto, estão fragmentados em meio a cenas atuais de visitantes do Museu Franz Kafka, em Praga, um grupo deles devorando hamburguers temáticos, e alusões aos períodos em que o escritor passou internado para tratamento da tuberculose. O filme vai e volta, a imagem vai de frenética a estática, personagens olham diretamente para a câmera e fazem comentários para o público, numa montagem de pessoas, eventos, relacionamentos e lugares que busca simular o processo mental do escritor. Numa cena da infância, vemos o pai de Kafka “ensinando” o filho a nadar jogando o garoto no rio num estilo bem simples de nade ou afunde. A cena deságua num momento presente em que um grupo admira a margem do rio e ouve a guia turística explicando que ali era onde o Kafka adulto costumava descansar após nadar.

Outra justaposição mostra a pequena quantidade de escritos de Kafka perante a montanha de livros escritos sobre o trabalho dele. Bem como a quantidade de produtos e souvenirs ligados ao nome Kafka que em muito supera a vida curta e bem comum do biografado. Arte e comercialização. O anseio do autor por excelência e o barateamento de sua transformação em ponto de interesse num app de viagem usado por gente que provavelmente só vai ao museu para dizer que foi.

O filme não deixa de lado, ainda, o fato de que quase toda a família do escritor morreu no holocausto, mas o centro da história fica a cargo de Idan Weiss, o jovem ator alemão que estava a ponto de desistir da carreira quando foi escalado para viver Kafka. Não apenas fisicamente parecido com o escritor, mas capaz de ser o Kafka exasperado com as exigências da vida comum, em conflito com o pai, ao mesmo tempo duvidoso do anseio artístico do filho e lembrando o rapaz que seu conforto vem da empresa da família, com o constante barulho em sua casa ou qualquer coisa que o tire de seus escritos, ansioso por qualidade a ponto de destruir o que escreveu. O mesmo homem que foge do noivado enquanto envia cartas apaixonadas a outra mulher.

Há, contudo, muito a ser questionado no produto final. Não há propósito na cena em que Kafka participa de um cabo de guerra com homens com máscaras de animais, nem na cena de um grupo de homens nus fazendo exercícios, tomadas que parecem estar ali apenas para chocar o público. E Kafka, por todo o trabalho de Weiss em retratar os conflitos do escritor que se rebela contra as exigências da sociedade enquanto pratica remo, atividade só disponível a quem tinha finanças para tal, surge não diferente de tantos outros artistas incompreendidos cujo valor só foi reconhecido postumamente.  

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