Nos últimos anos, Hollywood passou a revisitar diversos personagens clássicos sob uma ótica revisionista. Em vez de reforçar os mitos que os tornaram populares, muitas produções procuram revelar o homem – ou a mulher – por trás da lenda.
O melhor exemplo recente é o filme Malévola (2014), uma releitura do clássico desenho animado A Bela Adormecida, feito pela Disney em 1959. O trailer da época mostrava Angelina Jolie incorporando todos os trejeitos do desenho criado pela equipe de animação, que contou com a participação de Eric Larson e Wolfgang Reitherman, inspirado na atriz Eleanor Audley. O que você iria descobrir é que a pior vilã que a Disney já havia criado para o cinema virou uma criatura mágica que foi traumatizada quando era mais jovem.
E assim, um filme que poderia ser uma versão mais voltada para o terror do que para a fantasia se transformou numa jornada para a redenção da bruxa má que, no passado de 1959, invadiu uma festa para assassinar a filha recém-nascida do Rei Stefan e da Rainha Leah.
Existem vários exemplos dessa tese correndo solta em filmes de super-heróis, de rebeldes revolucionários e agentes secretos. O mais recente produto dessa visão bizarra sobre heroísmo vem de A Morte de Robin Hood, escrito e dirigido por Michael Sarnoski, do recente Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024). Por sua conta e risco, ele decidiu contar os últimos dias da lenda viva conhecida como Robin Hood, numa interpretação perfeita para Wolverine, digo, Hugh Jackman.
Minha referência para assistir a esse filme não tinha nada a ver com dois grandes momentos do lendário personagem: As Aventuras de Robin Hood (1938), com Errol Flynn, e Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões (1991), estrelado por Kevin Costner. Entrei na sessão imaginando que Michael Sarnoski seguiria o caminho de Robin e Marian (1976): com Sean Connery fazendo um cansado guerreiro voltando das Cruzadas para retomar o romance com Lady Marian, sensivelmente interpretada por Audrey Hepburn. Um filme com ação e romance, e um daqueles finais eternizados por um roteiro que sabia como terminar uma bela história, escrito pelo ganhador do Oscar James Goldman, de O Leão no Inverno (1968). O que encontrei, porém, foi uma proposta completamente diferente.
Pelo que consegui entender, o que Sarnoski quis fazer não foi apenas desconstruir a lenda secular do bandido heroico de Sherwood que rouba dos ricos e alimenta os pobres. Robin Hood concebido pelo diretor e roteirista é um bandido sanguinário, responsável por dezenas de mortes de pessoas que cruzaram o seu caminho. Dá para notar essa personalidade destrutiva e vil na primeira meia hora do filme. Ele enfrenta opositores e os elimina com doses de complacência e violência gráfica. Quando enfrenta um grupo junto com seu leal companheiro de aventuras, interpretado por Bill Skarsgård, o filme parece mudar de gênero: de uma suposta aventura de ação, transforma-se num filme de horror violento.
Nesse momento, você começa a perceber que não vai assistir ao velho duelo entre Robin e as forças do Xerife de Nottingham. Pelo contrário, quase à beira da morte, Robin é levado para um refúgio numa pequena ilha perto da costa, comandada pela Irmã Brigid, feita por Jodie Comer, num papel que mostra que essa atriz britânica tem muito ainda a oferecer após o sucesso da série Killing Eve – Dupla Obsessão (2018).
É nesse lugar que Robin começa seu momento de redenção, lembrando que seu passado é cheio de histórias que ajudaram a formar a lenda de Robin Hood. À medida que sua recuperação física avança, existem elementos na história que mostram que a lenda é só uma história mal contada. É a icônica frase do filme O Homem que Matou o Facínora, dirigido por John Ford em 1962: quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda.
Na história de A Morte de Robin Hood, as revelações que vão acontecendo sobre o passado do arqueiro se sobressaem à verdade que se tornou a “história do bandoleiro Robin Hood”. O tom soturno da fotografia de Pat Scola (Pig – A Vingança, 2021), junto com a trilha sonora assustadora de Jim Ghedi, em seu primeiro trabalho para o cinema, cria uma atmosfera de terra devastada. Um lugar onde é preciso não gostar da vida para continuar morrendo.
Esse é o que vai acontecendo com o bandoleiro. Quando chega ao limite entre fantasia e realidade, Robin chega ao seu ponto de fervura. Sonhos, esperanças e a ideia de que tudo pode ser diferente. Triste ilusão.
A Morte de Robin Hood não é um filme sobre verdades e mentiras, lendas e realidade. É um filme escrito para dizer que a verdade por trás de lendas são construções cruéis e violentas, que devem ser questionadas em favor de uma realidade dos sobreviventes. É a visão de que todo ídolo tem pés feitos de barro, não importando que, para isso, seja preciso deixar claro que ninguém é inocente. O filme não se limita a mostrar um Robin Hood velho; ele questiona se Robin Hood merece ser lembrado como herói.
Como filme de um personagem ligado a aventuras heroicas, A Morte de Robin Hood turva qualquer possibilidade de identificação com o personagem. Quem é que quer se identificar com um violento bandoleiro do século XIII, que matou e chacinou famílias para roubar sem ajudar os pobres? Quando Robin tem um diálogo com uma jovem no começo do filme, o fim da conversa entre ambos é o sinal de alerta de que o filme não é nada do que poderia ser. Vale a pena desconstruir um mito se, ao fazê-lo, desaparece tudo aquilo que fazia dele uma lenda?
