Crítica | Filme | O Fim da Rua

Crítica | Filme | O Fim da Rua

Existe uma história que circula há décadas nos bastidores do entretenimento: a de que existem apenas oito roteiros e que todos os filmes que já assistimos ou séries que acompanhamos são variações dessas oito ideias. Se isso é verdade ou lenda urbana, a teoria não leva em consideração a criatividade que levou roteiristas a faturarem o Oscar de Roteiro Original.

Por mais surpreendente que possa ser a história de O Fim da Rua, é sempre bom, em qualquer análise, lembrar que as pessoas, mesmo gênios criativos do audiovisual, já foram crianças, já assistiram televisão, e o passado delas pode ter sido a semente que as transformou em roteiristas, cineastas e criadores de conteúdo. Ou seja, o filme passa a sensação de que o diretor e roteirista bebeu em fontes fantásticas como Além da Imaginação (1958), Quinta Dimensão (1963) e, por fim, o clássico desenho de Gaguinho e Frajola, Um Salto para Júpiter (1955).

O Fim da Rua não é apenas um filme com uma ideia surpreendente. Robert David construiu sua história de medo e pavor com a premissa básica do que poderia acontecer numa típica vizinhança do clássico subúrbio americano: e se a rotina se transformasse num pesadelo? Quem assistiu ao trailer de O Fim da Rua sabe que a história acontece quando, numa bela manhã, os moradores de uma comunidade de subúrbio americano acordam com dinossauros correndo atrás de todos para saciar uma fome secular.

Até chegarmos à resposta da simples pergunta “como eles foram parar no Parque dos Dinossauros?”, podemos imaginar quais foram as fontes de inspiração das quais Robert David bebeu. Começando com o episódio A Odisseia do Voo 33, da segunda temporada de Além da Imaginação. Um Boeing 707 ultrapassa uma barreira temporal, levando o avião a chegar à Era Cretácea, sem saber o que aconteceu e como poderiam voltar ao século XX.

Aí temos Estudo de Viabilidade, da primeira temporada de Quinta Dimensão. Seis quarteirões de um bairro de subúrbio são teletransportados para outro planeta, onde os alienígenas querem estudar o comportamento dos humanos. E, finalmente, o clássico desenho de Chuck Jones, Um Salto para Júpiter, onde Gaguinho e Frajola estão acampados numa região deserta quando fazem contato imediato com um alienígena verde. E, como o distraído Gaguinho não entende o que está acontecendo, na manhã seguinte eles seguem sua viagem sem perceber que estão em outro planeta. “Por enquanto é só, pessoal!”

Nada disso, contudo, chega perto do que esse diretor-roteirista conseguiu realizar com O Fim da Rua. Como a história se passa em 1982, ele tirou da linha de frente questões relacionadas à internet, às redes sociais e aos celulares. No lugar, colocou o simples e básico conhecimento científico para explicar o que aconteceu com aquele pedaço de subúrbio, através de uma citação de Carl Sagan sobre fendas temporais. Naquele momento da história, Carl Sagan foi o astrônomo que resolveu simplificar a Astronomia com sua série Cosmos.

A história criada não é sobre como sobreviver a um ataque de velociraptores numa manhã ensolarada. É um drama familiar clássico onde o casal, com dois filhos, vive em constante atrito, dando a impressão aos filhos de que o próximo passo é a destruição da família como eles a conheciam. Tudo muda quando dinossauros começam a bater à porta.

Vividos por Anne Hathaway e Ewan McGregor, Denise e Greg estão passando por uma crise que está deixando seus filhos, Brian (Christian Convery) e Audrey (Maisa Stella), mais inseguros. A insegurança vai desde uma possível surra que Brian pode levar de um colega da escola até o coração partido de Audrey ao perceber que sua amiga de escola parece não se interessar por ela romanticamente. As frustrações começam a ferver a relação da família quando um tsunami emocional cai sobre suas cabeças ao primeiro sinal de ataque jurássico.

Nem é preciso mencionar que, tecnicamente falando, O Fim da Rua é muito eficiente e até mesmo historicamente acurado. Os velociraptores desse filme têm penas e não pele lisa de lagarto, como em Jurassic Park (1993). Essa precisão científica vem de recentes descobertas sobre muitos dos tradicionais dinossauros que conhecíamos. Sim, muitos deles descendiam de aves.

Diferentemente dos episódios das séries mencionadas acima, onde a perspectiva de um final feliz passou longe da sala de roteiristas, David Mitchell construiu uma história de ação, aventura e terror, com um final muito interessante. O sufoco em determinados momentos mostra que o diretor-roteirista sabia exatamente onde chegar, deixando o público assustado e feliz com cada sequência envolvendo a família de sobreviventes. É claro que não posso revelar nada sobre ele, porque aqui, contar muito nos jogaria na vala comum dos pseudo-contadores de história. Basta mencionar que Carl Sagan estava certo.

O Fim da Rua é daqueles momentos eficientes e mágicos em que vale a pena relaxar e apreciar uma boa história sendo contada. Com todos os gritos, sustos e alívios quando a situação caminha para um final alinhado com um bom enredo, O Fim da Rua tem outra assinatura importante: a do cineasta e produtor J.J. Abrams, que construiu, com sua produtora Bad Robot, filmes como Cloverfield: Monstro (2008), Super 8 (2011) e Rua Cloverfield 10 (2016), que contam histórias onde o desconhecido está sempre do lado da própria casa.

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