Há algum tempo, a indústria cinematográfica vem sendo ameaçada pela cultura do imediatismo, cada vez mais latente na sociedade. Com o aprimoramento de redes sociais como Instagram e TikTok, surgiu um novo perfil de consumidor: o consumidor ativo, aquele que detém canais de grande alcance não apenas para consumir determinado conteúdo, mas também para opinar sobre ele, mesmo que de forma leiga.
Esse consumidor também se acostumou com conteúdos rápidos, de fácil absorção e consumidos no conforto do próprio lar. Com a consolidação das plataformas de streaming, produções longas como filmes e séries continuam tendo espaço, mas sob essa nova lógica. O que antes era encarado como um passeio cultural transformou-se em um investimento questionável para muitos, alimentado pela certeza de que o título estará no catálogo digital poucas semanas após a estreia.
Pressionados com as críticas e acuados pelo ecossistema digital, os cinemas tentam se reinventar para recuperar a relevância em massa. É exatamente nesse cenário de incertezas que Christopher Nolan lança seu mais novo filme, A Odisseia (The Odyssey), épico que já acumula mais de US$ 1,119 bilhão na bilheteria mundial.
Embora o longa conte com a assinatura de um diretor consagrado e um elenco de peso, o grande diferencial da obra reside na sua concepção técnica. Trata-se do primeiro trabalho de Nolan gravado integralmente em película analógica IMAX 70mm. Para viabilizar a empreitada, ele solucionou o histórico ruído mecânico que inviabilizava a captação do som direto dos diálogos. Em parceria com a IMAX Corporation, foi desenvolvida uma nova geração de câmeras mais silenciosas, apelidadas de Keighley.
Com esse feito, o cineasta reestabeleceu um abismo entre a experiência sensorial da sala de cinema e a reprodução doméstica. O movimento ganhou tração nas redes sociais e, de repente, ir ao cinema para assistir A Odisseia exatamente como Nolan idealizou, tornou-se o evento cultural do momento.
O impasse? Essa ideia genial, fruto de uma mente brilhante e apaixonada pela Sétima Arte, acabou ofuscada por um detalhe nada pequeno: a acessibilidade. Em todo o planeta existem apenas 41 salas equipadas com a tecnologia de exibição em película analógica IMAX 70mm e mais da metade desse número está localizada nos Estados Unidos. Países inteiros, como a Índia e seus 1,5 bilhões de habitantes, ficaram privados da novidade por falta de infraestrutura, gerando duras acusações de elitismo ao diretor.
Para intensificar o debate, as críticas ganharam força em meio ao clima da Copa do Mundo, o maior evento esportivo recente, que reacendeu discussões globais sobre acessibilidade e inclusão. Talvez o timing não tenha sido o ideal, mas será que, em outras circunstâncias, os questionamentos deixariam de existir? De qualquer forma, um fato é incontestável: a revolução de Nolan escancarou a hipocrisia daqueles que dizem prezar pela preservação da experiência cinematográfica, mas rejeitam suas exigências práticas.
Agora, aguardamos os próximos capítulos. Estaríamos diante de um novo modelo definitivo para a sobrevivência das salas de cinema? Haverá expansão dessa infraestrutura ao redor do mundo? Essas são perguntas que só o tempo e as escolhas do público poderão responder.
