Veja o trailer de A Odisseia de Christopher Nolan

Crítica | Filme | A Odisseia

A soma de Homero, autor de obras fundamentais da cultura ocidental, e Christopher Nolan, diretor que conquistou o status de autor, elevou a expectativa por A Odisseia a níveis quase insustentáveis. Para felicidade de todos os envolvidos, e o público, o resultado está à altura dessa expectativa, mesmo deixando à vista o fato de que o poema de Homero é uma coleção de episódios.   

Certamente, não é fácil colocar na tela o épico de Homero, narrativa cujos temas e ocorrências principais estão entranhados na mente do público. E isso mesmo para quem jamais teve contato com o poema original ou mesmo versões em prosa, ou até para crianças, como Ruth Rocha conta a Odisseia, que facilitam em muito o acesso à obra.

É sem dúvida a ciência dessa grandiosidade que levou Nolan não só a decidir filmar A Odisseia, como a escolha pelo IMAX. O formato de alta resolução criado para telas de grandes dimensões, acompanhado da fotografia de Hoyte van Hoytema, garante o impacto das cenas marítimas, da batalha por Troia, do famoso cavalo, da ilha onde Odisseu encontra Calipso (Charlize Theron) ou dos penhascos habitados pelas sereias, infelizmente vistas apenas ao longe. Embora o centro da narrativa não seja o cenário, mesmo numa história em que os elementos da natureza são representações vivas dos deuses que se envolvem constantemente nos assuntos humanos.

Nesse universo de mitos, o longa começa em Ítaca, ilha que há vinte anos viu seu rei, Odisseu (Matt Damon), partir para a guerra ao lado de Menelau (Jon Bernthal), rei de Esparta. O objetivo, recuperar Helena (Lupita Nyong’o), esposa de Menelau que Paris, príncipe de Troia sequestrou. Sem rei, a situação em Ítaca é perigosa, com a esposa de Odisseu, Penelope (Anne Hathaway) mantendo o governo enquanto o filho Telêmaco (Tom Holland) não atinge a idade de assumir o trono. Mas, os anciãos urgem para que Penelope escolha um novo marido entre a multidão de pretendentes que diariamente se banqueteia no castelo, entre eles, o mais arrogante, Antinoo (Robert Pattinson). Governados pela lei de Zeus, que diz que todo visitante deve ser bem recebido, Penelope e Telêmaco não podem negar receber a turba. A maioria não acredita que Odisseu está vivo. Penelope, Telêmaco, o pastor de porcos Eumeu (John Leguizamo) e o cachorro Argos são os únicos que se mantém fiéis ao rei ausente.

Assim como o original de Homero, o roteiro segue uma estrutura não linear, algo que se tornou também um elemento constante no trabalho de Christopher Nolan. Da cena inicial em que Odisseu se transformou em tema de poemas sobre o passado, o filme revela a partida, onde ele está nesse momento, o longo cerco diante das muralhas intransponíveis de Troia, o tumulto em Ítaca, o cavalo, o plano de Penelope de tecer durante o dia e desfazer o tecido à noite para ganhar tempo, a vitória e a partida para casa que dá início à série de eventos que efetivamente compõem a Odisseia. Episódios que culminam na chegada de Odisseu que enfrenta os pretendentes ao trono numa luta em espaço confinado, uma batalha desigual marcada por golpes, covardia e rendições que revelam porque o rei de Ítaca deixou seu nome na história.

É um projeto em tudo grandioso, em que Nolan exercita seu poder de atrair atores, todos desejosos por colocar um projeto seu no currículo mesmo que seja para fazer muito pouco. O que trouxe para a Odisseia nomes de todas as etnias, com uma exceção singular, não há um grego sequer a bordo. E não é por falta de opção com atores como Theo James, Dave Bautista e Jennifer Aniston ao alcance da mão.

O que não quer dizer que o elenco foi mal escolhido. Damon e Hathaway estão ótimos. Robert Pattinson é um vilão manipulativo e desprezível digno de seu tempo em tela e Tom Holland evolui e sobrevive à má escolha do roteiro de usar a palavra “papai”, que infantiliza Telêmaco. O destaque fora dos protagonistas, contudo, está com Samantha Morton como Circe, numa das cenas mais perturbadoras do longa, quando a feiticeira transforma os homens em porcos. Já o visual do ciclope Polifemo é uma das piores escolhas da produção, parecendo mais uma criatura mal-acabada do que um ser mitológico.

Não é a versão definitiva da Odisseia, pois isso jamais existirá, mas é uma versão digna do material de origem, ainda que o andamento perca o ritmo por vezes, em especial nas cenas com Calipso. Os elementos que fizeram da narrativa um clássico, o peso da liderança, o preço das decisões, amor, fidelidade, o horror da guerra, mesmo para quem está do lado vitorioso, a fragilidade e até inutilidade do heroísmo, o desafio em nome do anseio de voltar para casa, todos estão presentes. O resultado é envolvente, faz as quase três horas durarem psicologicamente menos e digna, mesmo com a interferência dos deuses e muito da violência do original reduzida para o público de hoje.

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