É interessante quando revemos alguma obra que marcou nossa mente de alguma forma. Akira, adaptação do mangá homônimo escrito por Katsuhiro Otomo em 1982, na revista Young Magazine, da editora Kodansha, terminou em 1991. Nesse meio tempo, o sucesso do mangá e as informações vindas do Japão de que Otomo iria dirigir a adaptação para o cinema levaram a Marvel, através de seu selo Epic, a começar a lançar Akira em quadrinhos no final dos anos 80.
Foi quando entrei nesse barco.
Comecei a colecionar a revista que era, claro, bem diferente do mangá tradicional. A Marvel, para facilitar a leitura para o público americano, não apenas colocou as páginas na ordem ocidental (da esquerda para a direita), como também fez com que Steve Oliff, um dos grandes ilustradores de quadrinhos, realizasse a colorização da obra. Autorizado por Otomo, claro.
A cada nova revista, a história ficava mais densa, mergulhando na boa e clássica ficção científica, como mutações genéticas e os erros causados por isso. Quando a história já caminhava para um momento crítico, veio a notícia da estreia de Akira no Japão e seu retumbante sucesso de bilheteria em 1988. A animação ganharia notoriedade quando foi lançada no Natal de 1989, nos Estados Unidos.
No Brasil, graças a Nelson Sato, que começou a distribuir animações japonesas em VHS pela Brazil Home Video, sua primeira empresa no setor de home entertainment. Durante dois anos, Nelson batalhou junto aos produtores japoneses pelos direitos de lançar Akira nos cinemas brasileiros, que chegou em agosto de 1991.
Nos quadrinhos, a Editora Globo começou a publicar a versão da Epic em 1990, mas também sofreu com o hiato de quase quatro anos para publicar o final da obra, com seus 38 volumes. Assim como na edição da Epic, quando chegaram à revista 33, Katsuhiro ainda não tinha completado a história. Por isso, a Globo retomou a publicação da história em 1997.
Para os leitores de mangás, Akira finalmente encontrou seu formato original quando a JBC, editora especializada em quadrinhos japoneses, publicou em seis volumes todas as 38 partes idealizadas por Otomo. O primeiro volume saiu em junho de 2017, e a coleção levou cerca de dois anos e meio para ser concluída por completo no país, com o volume 6 sendo lançado em dezembro de 2019.
Mas tem muito mais história sobre Akira e seu ressurgimento em 4K que você vai ler a partir de agora…
Akira: um passo além do mangá
Antes de Akira (1988) consolidar o anime como um fenômeno cult e adulto no Ocidente, outras produções em formato de longa-metragem e OVAs (Original Video Animation) já haviam pavimentado o caminho e capturado a atenção do público ocidental.
Começando com o já considerado clássico da animação asiática, Nausicaä do Vale do Vento (1984), de Hayao Miyazaki. O filme chegou aos Estados Unidos nos anos 80 em uma versão fortemente editada e censurada sob o título de Warriors of the Wind (Guerreiros do Vento). Apesar dos cortes que desfiguraram a obra original, o longa chamou muita atenção pela qualidade estética superior e ajudou a criar a base de fãs que mais tarde consumiria os clássicos do Studio Ghibli.
Vampire Hunter D (1985), baseado na obra literária de Hideyuki Kikuchi, criou uma versão futurista de Drácula, um caçador de criaturas das trevas nesse terror gótico com ficção científica pós-apocalíptica. O visual da história ficou com Yoshitaka Amano, responsável pelas capas dos livros originais. A direção do longa foi de Toyoo Ashida, que dirigiu vários episódios da série Patrulha Estelar (Space Battleship Yamato/1974–1977) e do longa-metragem Star Blazers, uma reedição da série japonesa, que começou o grande boom dos animes de ficção científica.
Em 1988, uma animação japonesa chegou aos cinemas do Japão carregando uma responsabilidade pouco comum para uma produção daquele tipo. Akira, dirigido por Katsuhiro Otomo a partir de seu próprio mangá, não apresentava uma aventura fantástica ambientada em um passado remoto, uma lenda oriental ou uma batalha entre heróis e vilões. Sua história acontecia em uma cidade futurista, violenta e politicamente instável, construída sobre as ruínas de uma tragédia nuclear.
Era uma ficção científica adulta, urbana e profundamente pessimista.
O filme apresentava Neo-Tóquio, uma metrópole reconstruída depois da destruição de Tóquio, onde gangues de motociclistas, militares, cientistas e jovens marginalizados conviviam em uma sociedade aparentemente moderna, mas prestes a explodir novamente. No centro da história estavam Kaneda e Tetsuo, dois integrantes de uma gangue de adolescentes. Quando Tetsuo entra em contato com um experimento militar envolvendo poderes psíquicos, sua transformação desencadeia uma sequência de acontecimentos que coloca em risco o próprio futuro da cidade. O impacto de Akira não estava apenas na história. Estava também na maneira como aquela história era contada.
Uma animação japonesa diferente
A animação japonesa já existia internacionalmente havia décadas, mas sua presença fora do Japão era frequentemente associada a aventuras, ficção científica de caráter mais fantástico, robôs gigantes, heróis e personagens destinados principalmente ao público jovem. Akira apresentava outra possibilidade.
A animação podia ser violenta, política, filosófica, sexualmente provocadora e visualmente sofisticada sem precisar abandonar a linguagem da ficção científica. Mais do que isso: não havia uma preocupação em adaptar a história para aquilo que o Ocidente esperava de um desenho animado.
A cidade, as motocicletas, os prédios, as multidões e os movimentos dos personagens davam ao filme uma dimensão cinematográfica incomum. A animação não era simplesmente utilizada para representar aquilo que seria difícil filmar com atores. Ela era a própria linguagem da obra.
É uma das razões pelas quais Akira acabou se tornando uma referência fundamental do cyberpunk e uma das obras que ajudaram a modificar a percepção internacional sobre o anime. Quase quatro décadas depois, sua influência ainda aparece na ficção científica, na animação e nos videogames.
O caminho até o Brasil
No Brasil, a história ganhou uma dimensão ainda mais curiosa. Akira chegou aos cinemas em 1991, três anos depois de sua estreia japonesa, numa época em que a animação japonesa ainda estava longe de ocupar o espaço que conquistaria posteriormente no mercado brasileiro. Até aquele momento, os distribuidores acreditavam que as animações vindas do Japão eram um nicho no qual não estavam dispostos a investir.
Nelson Sato mudou essa perspectiva.
Nelson começou a trabalhar no mercado de home entertainment através da Brazil Home Video, trazendo três obras para alimentar esse setor ainda jovem no Brasil: Capitão Harlock e a Nave Arcádia (1982), Badios – Os Guerreiros do Espaço (1981) e o infantil Marco: Dos Apeninos até os Alpes (1976). O lançamento de Akira, porém, não foi resultado de uma grande aposta dos distribuidores tradicionais.
Segundo Nelson Sato, os grandes distribuidores da época não se interessaram pelo filme. A estratégia acabou sendo apostar em poucas salas e no chamado road show, permitindo que o boca a boca construísse o público. O resultado surpreendeu: o filme permaneceu em cartaz durante aproximadamente um ano e ultrapassou 250 mil espectadores.
Esse dado é importante porque ajuda a entender o tamanho da aposta. Akira não chegou ao Brasil embalado por uma grande campanha de Hollywood. Foi o próprio público que ajudou a transformar o filme em acontecimento. E isso aconteceu antes da explosão de popularidade que o anime teria no país na década seguinte.
O filme não conta exatamente a mesma história
Embora Akira seja uma adaptação do mangá, filme e quadrinhos não devem ser encarados simplesmente como duas versões da mesma história. O filme precisava transformar uma narrativa muito extensa em pouco mais de duas horas. O próprio Otomo precisou selecionar personagens, acontecimentos e conflitos, alterando relações e simplificando ou eliminando determinados elementos.
O mangá, com seus seis volumes, permite acompanhar com muito mais profundidade a transformação de Tetsuo, as disputas políticas e militares, os diferentes grupos envolvidos na história e as consequências dos acontecimentos. A edição brasileira da JBC, lançada em 2017, tornou essa diferença particularmente evidente. Pela primeira vez no Brasil, Akira foi publicado em seis volumes seguindo o formato original japonês, com leitura da direita para a esquerda. A própria JBC destacou que aquela edição permitia ao leitor conhecer a obra em sua concepção original.
Assim, a trajetória brasileira de Akira acabou passando por três experiências diferentes: a versão ocidentalizada dos quadrinhos da Globo, o filme exibido nos cinemas e, décadas depois, o mangá em sua forma original. Cada uma apresenta um Akira diferente. E agora, novamente no cinema.
É nesse ponto que a volta de Akira aos cinemas brasileiros ganha um significado que vai além da nostalgia. Agora com a Sato Company, Nelson Sato, o responsável por trazer Akira para os brasileiros conhecerem há 35 anos, está trazendo a nova cópia restaurada e remasterizada em 4K. O filme começa a ser exibido nacionalmente a partir desta quinta-feira.
O grande diferencial de 1991 para hoje é que o público que aprecia animações asiáticas é muito maior. Há 35 anos, Nelson Sato apostou em um filme japonês que muitos distribuidores não queriam colocar nas salas. Em 2026, Nelson retorna com o título para um público que já cresceu conhecendo anime, mangá e cultura pop japonesa. Quem assistir a Akira hoje provavelmente chegará à sala conhecendo Demon Slayer, Attack on Titan, Jujutsu Kaisen, One Piece, Dragon Ball ou dezenas de outras produções que ajudaram a tornar o anime parte do mercado internacional. A diferença é enorme.
Ao entrar numa sala de cinema para assistir a esse fenômeno cultural e mercadológico, o público brasileiro estará em contato com uma história primordial, que ajudou o Ocidente a entender melhor os conceitos de uma cultura milenar.
Akira ajudou a abrir justamente essa porta.
Akira estreia em 27/8, pela Sato Company.
