O primeiro bloco de ingressos para ver a Tapeçaria de Bayeux no Museu Britânico em Londres se esgotou com a rapidez de um concerto de rock.

Ingressos esgotados para ver a tapeçaria de Bayeux

O primeiro bloco de ingressos para ver a Tapeçaria de Bayeux no Museu Britânico em Londres se esgotou com a rapidez de um concerto de rock. Os mais de cem mil ingressos, ao custo de 33 libras cada para o acesso entre 10 de setembro e 31 de dezembro de 2026 foram vendidos em um dia, restando ao público aguardar os ingressos para o próximo bloco.

Testemunho histórico

Apesar do nome, a Tapeçaria de Bayeux é na verdade um bordado. Com quase 70 metros de comprimento e 50 centímetros de altura, a tapeçaria retrata a Batalha de Hastings em 1066. No evento que alterou a história, William, Duque da Normandia, cruzou o Canal da Mancha liderando soldados normandos de ascendência viking e matou o rei Anglo-Saxão Harold II com uma flecha que atravessou-lhe o olho. Governo, idioma e composição étnica da Inglaterra mudaram a partir desse evento que segue influente. O atual Rei Charles III é descendente dos conquistadores. Não à toa, o lema dos monarcas ingleses é Dieu et mon droit, Deus e meu direito, em bom francês.

A Tapeçaria – vamos ficar com o nome pelo qual o trabalho é conhecido – mostra 58 cenas que vão dos anos finais do reino de Eduardo, o Confessor, em 1064, até a batalha que deu o trono a William, o Conquistador. Feita de linho bordado com lã, a Tapeçaria retrata centenas de figuras humanas e animais, bem como textos em latim descrevendo a história da ascensão de William ao trono inglês. As cenas também incluem plantas e a passagem do Cometa Halley na primavera de 1066.

Uma parte importante das imagens, no entanto, está com personagens sem nome, uma mulher que foge com uma criança de uma casa incendiada, soldados decapitados e corpos despedaçados mostrando o custo da guerra.

Origem incerta

Como muitas obras antigas, a Tapeçaria tem origem incerta. Ela provavelmente foi encomendada para decorar a catedral de Bayeux no século 11 e consta no inventário feito em 1476. O inventário também relata que a Tapeçaria era exibida na nave da catedral uma vez ao ano e mantida numa arca de madeira no restante do tempo.

A Tapeçaria volta a ser citada em documentos somente no século 18, quando, em 1794, foi levada pelo Comitê de Arte do distrito de Bayeux em nome da nação. Uma tradição local diz que ela quase foi cortada em pedaços em 1792 para cobrir carroças, mas foi salva pelo advogado Léonard Lambert-Leforestier.

No início do século 18, o Ministério do Interior requisitou que a Tapeçaria fosse enviada à Paris, onde foi exibida no Louvre entre 6 de dezembro de 1803 a 18 de fevereiro de 1804. O período corresponde ao momento em que Napoleão fazia planos para invadir a Inglaterra, algo que nunca se concretizou, mas fazia sentido para o conquistador francês exibir a “outra vez” em que a França havia desembarcado nas ilhas britânicas.

Em 1804, a Tapeçaria voltou a Bayeux com uma carta, onde Vivan Denon diz que o bordado foi feito pela Rainha Matilda, esposa de William o Conquistador. Essa versão, no entanto, não é confirmada e pertence mais à ideia romântica da rainha e suas damas de companhia bordando o painel. Para os historiadores, A Tapeçaria foi encomendada por Odo, Bispo de Bayeux e meio-irmão de William, o Conquistador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas planejaram levar a Tapeçaria para a Alemanha. O plano foi frustrado pela Resistência Francesa alertada pela equipe de decifração de código de Bletchey Park, famoso por ser onde Alan Turing trabalhou na quebra do código da máquina Enigma.

Primeira visita à Inglaterra

Desde 1983, a Tapeçaria estava no Bayeux Tapestry Museum em Bayeux, na Normandia. Tentativas anteriores foram feitas para levar a obra até a Inglaterra, todos sem sucesso. A primeira foi em 1931. Um novo pedido foi feito em 1953, para a coroação de Elizabeth II, e depois em 1966 para os 900 anos da Batalha de Hastings. Novo pedido nos anos 1980 foi novamente negado.

A visita atual é vista como um triunfo diplomático após anos de negociação e aproveita o período em que o museu em Bayeaux está em reforma. Apesar dos sorrisos governamentais, contudo, a visita está cercada de controvérsia. Ingleses falam que a Tapeçaria foi feita na Inglaterra e, portanto, está voltando ao lar. Na França, milhares de especialistas protestaram quanto ao risco de danificar a Tapeçaria durante o transporte. O público reclama que hóspedes de um hotel de luxo parceiro do Museu Britânico têm acesso à exibição, enquanto todas as outras pessoas têm de disputar ingressos.

Entre reclamações e correria, no entanto, um tecido bordado que soma arte narrativa, testemunho histórico e propaganda política, além de desafiar o tempo com suas cores, segue mostrando um dos eventos mais marcantes da história europeia e mundial.

E, para quem não puder ver de perto, há a opção online: https://www.bayeuxmuseum.com/en/the-bayeux-tapestry/discover-the-bayeux-tapestry/explore-online/

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