Entenda a saída de Ha Young de Heróis de Plantão

Entenda a saída de Ha Young de Heróis de Plantão

Atriz deixou a série em meio à discussão sobre passado, história, família e responsabilidade.

A Netflix confirmou a saída da atriz Ha Young da série Heróis de Plantão, onde ela interpretava a experiente enfermeira Cheon Jang-mi. Ainda não há informações se a personagem será interpretada por outra atriz ou sairá da história a partir da segunda temporada.

Um dos grandes sucessos da Netflix, Heróis de Plantão acompanha o médico Baek Gang-hyeok (Ju Ji-hoon, A Imperatriz de Casou Novamente, Kingdom), contratado para criar uma equipe de trauma em um grande hospital coreano. Eficiente e direto, o Dr. Baek chega sem alarde ao hospital, onde observa o trabalho da enfermeira Cheon e do jovem médico Yang Jae-won (Choo Young-woo, O Conto da Senhora Ok). Em meio à oposição dos diretores do hospital, que só pensam em manter as boas estatísticas, algo que uma equipe dedicada a casos graves vai prejudicar, Baek recruta a enfermeira, a quem dá o apelido de Gângster, e Yang Jae-won, que ele passa a chamar de Ânus numa referência irônica ao plano do médico de se tornar proctologista.

Repleta de cenas de ação e muita correria, Heróis de Plantão se apoia não apenas na luta dos médicos por salvar vidas, mas também na dinâmica entre Baek, Cheon e Yang. Sem a enfermeira Gângster e seu jeito despachado, a série perde um de seus elementos mais importantes.

O Peso do Passado

A saída de Ha Young acontece após a descoberta de que o bisavô da atriz colaborou com as autoridades japonesas durante o período colonial (1910-1945), quando a Coreia foi governada pelo Japão.

A atriz, é claro, não tem qualquer responsabilidade sobre os atos cometidos por seu antepassado. Foi sua postura que gerou a controvérsia que levou à sua saída de Heróis de Plantão com possíveis consequências futuras à sua carreira em um país onde erros raramente são perdoados.

Tudo começou em um episódio do talk show Problem Child in House, quando Ha Young mencionou que sua família é ligada à medicina há quatro gerações. A atriz seguiu relatando que seu bisavô havia estudado medicina ocidental no Japão e mais, que ele abriu a primeira clínica de medicina ocidental em Seul e cuidou da saúde do imperador Gojong (1852-1919).

O comentário naturalmente gerou curiosidade e pesquisas sobre o bisavô da atriz, identificado como Ahn Sang-ho, que em 1902 se tornou o primeiro coreano a ter um registro como médico emitido pelo governo japonês. A situação se complicou, no entanto, quando em um artigo do Maeil Sinbo, jornal oficial do governo colonial japonês na Coreia, Ahn Sang-ho foi citado dizendo que sua família estava “completamente assimilada”, que ele não só havia se casado com uma japonesa como em sua casa todos se vestiam no estilo japonês e era proibido falar o idioma coreano. Arquivos também mostraram que Ahn Sang-ho fez parte da Daejeong Chinmokhoe, uma organização fundada em 1916 por conhecidos colaboradores, como Song Byeong-jun, autor de cartas ao governo japonês pedindo a anexação da Coreia, e Lee Wang-yong, primeiro ministro da Coreia e um dos Cinco Traidores de Eulsa, como são chamados os cinco ministros do imperador Gojong que assinaram o Tratado de Eulsa, que em 1905 entregou a Coreia ao domínio japonês.

Inicialmente, a agência da atriz negou qualquer ligação do bisavô de Ha Young com atividades pró-Japão. Alguns dias depois, no entanto, a agência divulgou uma nova declaração admitindo a conexão após checagem de documentos. Ha Young também publicou um pedido de desculpas admitindo que falou sobre a história de sua família sem considerar a dor do período colonial, deixando Heróis de Plantão logo em seguida.

Ha Young não é a primeira celebridade a pedir desculpas por antepassados envolvidos em atividades pró-Japão durante o período colonial. Em 2007, o ator Gang Dong-woon (Invasão Zumbi 2: Península) citou seu bisavô, um magnata da mineração numa entrevista. Dez anos depois, a entrevista ressurgiu e o ator foi duramente criticado por falar de forma positiva sobre um homem que está listado no Dicionário Biográfico de Colaboradores Pró-Japão. O volume, publicado em 2009 pelo Centro pela Verdade Histórica e Justiça, lista 4.389 pessoas que ativamente prejudicaram o movimento de independência ou participaram de atos de traição. Assim como Ha Young, o ator pediu desculpas, dizendo que só havia ouvido falar de seu bisavô em família e sempre de forma positiva, nunca tendo feito qualquer pesquisa sobre o assunto.

Já a atriz E Ji-ah (The Legend) teve uma postura mais cuidadosa. Em 2025, a atriz relatou ter descoberto as atividades pró-Japão de seu avô, que morreu quando ela tinha apenas dois anos. Após uma pesquisa em centros de documentação, ela contou que não encontrou justificativas para os atos de seu avô e fez um pedido público de desculpas. O caso, entretanto, ressurgiu quando o pai da atriz entrou em disputa com os irmãos por um terreno deixado pelo avô. Mais uma vez, a atriz veio a público e fez questão de dizer que nunca havia elogiado o avô e que jamais usufruiu de qualquer bem deixado por ele, além de viver de seu próprio trabalho desde os 18 anos.

Reação pública

A saída de Ha Young de Heróis de Plantão atraiu críticas do público ocidental ao que é visto como uma condenação por atos pelos quais a geração atual não tem responsabilidade. Entretanto, a situação não é diferente da Europa, onde os países ainda discutem a colaboração de seus cidadãos e empresas com as forças de ocupação nazista. A França é especialmente sensível ao tema, que envolve cerca de 200 mil descendentes de militares alemães, fruto de relacionamento com mulheres francesas. Em 2009, a Alemanha ofereceu dupla cidadania a esses descendentes, dando legitimidade a pessoas que passaram a vida sob ofensas, bullying e até agressão. Muitos identificaram seus pais nas décadas seguintes e até fizeram contato com as famílias deles na Alemanha.

Na Coreia, a primeira exigência é que o descendente reconheça os atos de seu antepassado e não se orgulhe dele, como Ha Young fez durante a entrevista. Mais espinhosa é a questão financeira. Para muitos coreanos, os descendentes usufruem de uma vida confortável a partir de bens herdados de colaboradores de alto escalão.

O caso de Ha Young reabriu a discussão sobre esses bens. Em 16 de agosto, o governo coreano anunciou a reabertura do trabalho de busca e apreensão de bens de colaboradores. É a segunda vez que o governo da Coreia faz esse tipo de ação e fica claro que o anúncio tem ligação com o caso da atriz. Uma nova lei sobre o assunto foi aprovada em maio, mas só agora a nova fase das buscas foi anunciada. Na primeira fase de busca, entre 2066 e 2010, o governo desapropriou 2.539 propriedades de 168 colaboradores, além de 24 propriedades entregues voluntariamente por descendentes. Caso algum descendente venda uma propriedade para tentar esconder a origem, a lei permite que o governo confisque o valor obtido.

Em meio às consequências de uma ocupação não apenas dolorosa, como todas são, mas ainda recente, é pouco provável que um simples pedido de desculpas limpe a imagem de Ha Young. Talvez o caminho seja fazer como o cantor Jeon Beom-sun. Formado em história e pesquisador, Jeon estava na universidade quando sua mãe revelou ser descendente de Yi In-jik, famoso autor coreano e colaborador pró-Japão. Desde então, o cantor tem falado abertamente sobre a descoberta, seu sentimento de vergonha e escreveu um livro, Jeon Beom-sun’s Korean History Therapy (A Terapia de História Coreana de Jeon Beom-sun em tradução livre), além de organizar doações a centro de pesquisa histórica.

Mais uma prova de que as guerras não acabam quando a rendição define quem foi derrotado e os tratados de paz são assinados.

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