Ser mais um filme com um homem e um cachorro logo depois de Ponto Sem Retorno pode não ter sido o melhor cenário para a estreia de Coração Selvagem. Os dois filmes, no entanto, não poderiam ser mais diferentes.
Emotivo, emocionante, enxuto e carregado de pontos para reflexão, Coração Selvagem é um filme para quem gosta de cães e poucos diálogos. O filme começa com uma jovem (Anna Lambe, True Detective) dirigindo por uma estrada deserta, onde encontra um cão solitário. Dali, o roteiro leva o público a uma semana antes, quando os veteranos de guerra James (Brad Pitt) e Odin (Uber) pousam com um pequeno hidroavião num ponto isolado do Alasca para acampar. Cerveja, livro, pesca, James procura o silêncio após uma vida dedicada ao exército, parte dela ao lado de Odin, ambos física e mentalmente afetados pelas experiências no campo de batalha.
Tudo vai bem até os dois precisarem deixar o lugar por conta de uma tempestade e serem levados para um local ainda mais distante da civilização. Não é uma história típica de pessoa que vence dificuldades inesperadas. James é um homem treinado para a sobrevivência e rapidamente determina o objetivo, caminhar até uma estrada a 90 quilômetros de distância onde será possível encontrar ajuda para voltar para casa. É quando a história realmente começa. Não há inimigos no sentido tradicional, seja na forma de criminosos, caçadores ou qualquer outra presença humana. O enfrentamento é com a natureza, que segue seu ritmo, animais selvagens caçando para sobreviver, chuva, frio, terreno difícil e distância, por vezes, sorte, por vezes, azar.
Filmado na Nova Zelândia, que “interpreta” o Alasca, o longa faz enorme uso dos grandes espaços desabitados. São cenas importantes para mostrar o tamanho do desafio que James e Odin enfrentam, mesmo com todo o treinamento que ambos receberam e o quanto já provaram ser capazes de sobreviver. Na fotografia de Mauro Fiore, céu e montanhas surgem gigantescos tanto em volta do pequeno avião de James como ao redor do homem e seu companheiro canino. Em terra, a floresta não é amigável, e muitas vezes nos perguntamos se James não tomou uma decisão estúpida indo acampar sozinho.
Com exceção de uma cena com J.K. Simmons, Pitt está só ou apenas com o cachorro. Atuar sem outros atores com quem dialogar ou reagir é um trabalho difícil, e ele se sai muito bem da tarefa, retratando James em toda sua dor, resiliência e sua aceitação das circunstâncias, bem como sua ligação profunda com Odin.
Bem dirigido por David Ayer, a partir do roteiro de Cameron Alexander, Coração Selvagem passou um bom tempo aguardando alguém que se interessasse pela história do homem e seu cão. Ainda bem que encontrou.
Mas prepare-se para lágrimas.
