Um filme sobre os limites doentios da reabilitação e o desejo de controle nos faz lembrar como a civilidade forçada pode ser tão destrutiva quanto a própria violência. Bom Garoto (Heel / Good Boy), disponível no Filmelier+, é o tipo de suspense psicológico claustrofóbico que embrulha o estômago e não dá trégua ao público. Dirigido pelo aclamado cineasta polonês Jan Komasa (indicado ao Oscar por Corpus Christi), o longa marca sua estreia em língua inglesa com uma abordagem visceral, sombria e tingida por um humor ácido perturbador.
A trama acompanha Tommy (Anson Boon), um jovem de 19 anos imerso em uma espiral caótica de drogas, vandalismo e agressões exibidas com orgulho nas redes sociais. Após uma noite de excessos, ele é sequestrado por Chris (Stephen Graham) e Kathryn (Andrea Riseborough), um casal aparentemente respeitável e pacato que decide “reeducá-lo” à força no porão de sua casa suburbana, tratando o rapaz literalmente como um cão a ser domesticado e adestrado. Tudo se desenvolve em um embate sufocante de poder, onde a linha entre reabilitação e sadismo puro é apagada sem pudor.
O grande coração, ou a alma mais macabra da produção, reside na precisão cirúrgica de seu elenco. Anson Boon entrega uma atuação corporal impressionante e dolorosa, transitando com maestria entre a arrogância insolente e o desespero absoluto da desumanização. Do outro lado, Stephen Graham e Andrea Riseborough brilham ao personificar uma cordialidade tóxica: Graham, com sua calma assustadora e tom de voz paternal, transforma o autoritarismo em algo assustadoramente plausível, enquanto Riseborough injeta camadas inquietantes de carinho doentio e luto disfuncional.
O roteiro assinado por Bartek Bartosik e Naqqash Khalid acerta em cheio ao evocar paralelos com Laranja Mecânica, satirizando as hipocrisias da sociedade de classes e os métodos de aversão que prometem “salvar” os marginalizados às custas de sua própria identidade. A direção de Komasa não oferece saídas confortáveis nem redenções baratas: a decupagem sufocante e o desenho de som meticuloso amplificam cada ruído do cativeiro, tornando o ambiente doméstico um verdadeiro cenário de horror psicológico. Se você procura um thriller provocativo, impiedoso e conduzido com atuações de altíssimo nível sobre a obsessão humana por controle e conformidade, aperte o play preparado para um soco no estômago.
Estreou em 10/9 no Filmelier+.
