Quando assisti ao primeiro filme de Jack Reacher, O Último Tiro (2012), não imaginava que Tom Cruise pudesse sustentar mais uma franquia de ação, além de Missão: Impossível. O filme tinha, porém, uma curiosidade interessante: o diretor Christopher McQuarrie estava realizando seu segundo trabalho atrás das câmeras. Sua carreira como roteirista já era uma credencial respeitável, especialmente depois de assinar o roteiro de Os Suspeitos (1995), que lhe rendeu o Oscar de Roteiro Original.
Ainda assim, ao terminar a sessão, saí do cinema com a sensação de que faltava alguma coisa. Eu não conhecia os livros de Lee Child nem tinha referências anteriores sobre o personagem. Bastou o filme ser lançado para que os fãs da obra literária começassem a questionar a escolha de Tom Cruise para o papel. Na visão de muitos leitores, o ator não correspondia à descrição física de Jack Reacher. A discussão ganhou força e, em 2016, Cruise estrelou uma segunda aventura, Jack Reacher: Sem Retorno. A possível franquia cinematográfica acabou não prosseguindo.
Quatro anos depois, Lee Child, pseudônimo do escritor britânico James Dover Grant, firmou parceria com a Skydance e a Paramount Television para levar o personagem à televisão, em uma série lançada pelo Prime Video. A busca pelo Jack Reacher ideal, que conquistaria os fãs ao longo de quatro temporadas, terminou com a contratação de Alan Ritchson. O ator, que interpretou a versão jovem de Aquaman em Smallville e participou de Titãs, passou a encarnar o ex-major da Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos.
Ritchson foi escolhido por reunir características muito próximas da descrição literária do personagem: alto, forte, musculoso e com uma presença física capaz de transmitir a sensação de que nada poderá detê-lo quando entra em ação. Com isso, Reacher conseguiu agradar aos admiradores dos livros e também a espectadores que, como eu, não conheciam o personagem, mas acabaram fascinados por suas histórias.
O produtor Nick Santora já tinha uma carreira expressiva na televisão antes de criar Reacher. Seu currículo inclui trabalhos em Lei & Ordem (2004), Prison Break (2005), Engana-me Se Puderes (2009), Agentes Fora da Lei (2011) e Scorpion – Serviço de Inteligência (2014), entre outras produções.
O major Jack Reacher serviu na Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos, onde participou de investigações criminais envolvendo militares. Depois de deixar a carreira militar, passou a viver como um andarilho. Viaja de cidade em cidade, praticamente sem bagagem e sem endereço permanente, até que alguma situação o coloca diante de um crime ou de uma conspiração. A partir daí, sua experiência militar, sua capacidade de investigação e sua enorme força física fazem dele uma espécie de justiceiro particular.
Um dos elementos fundamentais da série está justamente nessa característica: Reacher não procura problemas, mas também não consegue ignorá-los quando os encontra. Ele funciona simultaneamente como investigador, detetive e homem de ação, seguindo uma espécie de código moral próprio. Essa estrutura permite que cada temporada conte uma história praticamente independente, mantendo algumas relações e personagens recorrentes.
A primeira temporada, baseada no romance Dinheiro Sujo (Killing Floor, de 1997), levou Reacher à pequena cidade de Margrave, na Geórgia. Preso por um assassinato que não cometeu, ele descobre que a vítima era seu próprio irmão, Joe. Ao lado dos policiais Oscar Finlay e Roscoe Conklin, começa a investigar uma conspiração envolvendo policiais corruptos, políticos e empresários ligados a um esquema de falsificação de dinheiro. Foi também a temporada que estabeleceu a fórmula da produção: investigação policial, conspiração, violência bastante gráfica e um protagonista que parece estar sempre alguns passos à frente dos adversários.
Na segunda temporada, baseada no livro Azar e Contratempo (Bad Luck and Trouble, de 2007), a história ganhou uma dimensão mais militar. Reacher é procurado por Frances Neagley, antiga integrante da unidade de investigações especiais que ele comandava. Depois que membros do antigo grupo começam a ser assassinados, Reacher reúne os sobreviventes para descobrir quem está por trás das mortes. A investigação conduz o grupo a uma empresa de tecnologia, a uma estrutura de segurança corrompida e a um esquema internacional de tráfico de armas. Interpretada por Maria Sten, Neagley tornou-se uma das figuras mais importantes do universo de Reacher na televisão.
A terceira temporada voltou a colocar Reacher praticamente sozinho no centro da ação. Adaptando Acerto de Contas (Persuader, de 2003), ele aceita trabalhar com a DEA, o órgão americano de combate ao tráfico de drogas, para derrubar um traficante de armas. Para isso, infiltra-se como guarda-costas do filho do criminoso. A temporada também explorou aspectos do passado de Reacher e colocou em cena Xavier Quinn, um inimigo que já fazia parte de sua história.
A quarta temporada, encerrada agora, deslocou a ação para a Filadélfia e foi baseada no livro Amanhã Será Outro Dia (Gone Tomorrow, de 2009). Reacher se envolve na investigação depois de testemunhar uma mulher, Anna Merrick, morrer em circunstâncias suspeitas no metrô. O caso conduz a uma conspiração envolvendo uma operação secreta da CIA, um dispositivo com informações sobre uma antiga missão na Indonésia e uma fórmula relacionada a armas químicas.
Ao longo da investigação, Reacher trabalha com a detetive Tamara Green, o policial Jacob Merrick e o jornalista Russell Plum. O grupo precisa desvendar a origem do material e impedir que uma arma química seja utilizada em um ataque de grandes proporções. A temporada mantém a combinação de investigação, conspiração e confrontos físicos que se tornou a marca da série.
Depois de quatro temporadas, Reacher construiu sua identidade em torno de uma fórmula relativamente simples: um homem extremamente competente entra em uma situação aparentemente impossível e desmonta, peça por peça, uma estrutura criminosa muito maior do que ele. É o perfil clássico do herói das histórias de ação e aventura, atualizado para a televisão contemporânea.
A Skydance e a Paramount já estão preparando a quinta temporada, baseada no livro Make Me, o 20º romance de Lee Child, publicado em 2015.
A série também conseguiu fazer com que os dois filmes estrelados por Tom Cruise seguissem por outro caminho, sem que a comparação entre os intérpretes de Jack Reacher se tornasse o único assunto. O personagem é um homem forte, habilidoso com armas e extremamente eficiente no combate corpo a corpo. Felizmente, não é um brutamontes que resolve qualquer situação simplesmente no tapa ou no tiro. Jack é inteligente, observa o que acontece ao seu redor e utiliza os detalhes para construir suas próprias hipóteses e solucionar os casos.
Outro detalhe importante está na construção dos vilões. Em uma época em que muitos antagonistas são apresentados como produtos de traumas do passado, os inimigos de Reacher são, em grande parte, pessoas que escolheram o caminho da violência e não hesitam em matar para alcançar seus objetivos. Não precisam de longas justificativas psicológicas para explicar suas ações.
Quando Reacher fica frente a frente com seus inimigos, o espectador sabe que o confronto decisivo está próximo. Ele tem um código moral, inteligência, limitações e uma maneira direta de enfrentar o mundo. Como personagem de ação e aventura, ele segue uma tradição narrativa em que a história precisa chegar a uma conclusão. A violência pode ser gráfica, mas também funciona como parte do espetáculo que a série oferece. E, quando o herói finalmente coloca os criminosos contra a parede, a reação do público costuma ser imediata: aplausos.
