Engana-se quem achava que a série Neagley seria um Reacher de saia. Ainda que a personagem tenha comprovado sua eficiência e habilidades nas poucas vezes que ajudou Jack Reacher ao longo de seus quatro anos de vida no streaming do Prime, Frances Neagley tem vida própria e brilho suficiente para renovar para uma segunda temporada.
Ainda não confirmada, diga-se de passagem, mesmo tendo uma história pronta.
E são várias as diferenças entre os dois personagens, ambas criações de Lee Child. Reacher vaga errante pelos EUA carregando muito pouco consigo. Neagley está baseada em Chicago, trabalhando regularmente em uma agência de investigação particular. Tem pai e residência fixa, carro, celular e tudo aquilo que manda o tal do figurino.
O que aproxima os dois personagens – além do período em que atuaram na polícia do exército americano – é o comportamento social, digamos, excêntrico. Se Reacher lembra o Sherlock Holmes de Benedict Cumberbatch (um sociopata de alto rendimento, próximo da Síndrome de Asperger), só que musculoso, Neagley confessa ter afefobia, um transtorno que a impede de tocar e ser tocada por outras pessoas. Confesso que não tinha ouvido essa antes…
Isso a impede de receber afeto do pai ou mesmo ter seu primeiro beijo e é tema presente ao longo de todos os oito episódios da primeira temporada. Que, claro, recebe Alan Ritchson em participação especial.
A abertura de Neagley é idêntica à de Reacher, talvez uma tentativa de instruir o espectador incauto sobre o que se trata. A investigadora particular tenta entender porque um amigo de infância correu pelado para cima de um trem e como isso se relaciona a um tipo de seita. Ela forma dupla com um detetive da polícia (Greyston Holt) que tem reputação de X9. Uma inglesa aspitante a investigadora particular (Adeline Rudolph) e um jovem sem teto que vive de cometer pequenos delitos (Jasper Jones).
Acho bom se acostumarem com esse quarteto, porque ele pode repetir a dose em breve.
A série equilibra boa ação em cenas que parecem ter exigido bastante empenho da atriz Maria Sten, com a investigação em si. Aquele momento em que os diálogos têm que explicar tudinho para o público. Maria faz o estilo Tom Cruise, sabe? Já que é para correr, vamos correr pra valer… Passa a ideia de que se dedicou bastante para que tudo desse certo. E deu, de acordo com os números que o Prime tem divulgado.
Spin-offs sempre correm o risco de naufragar na tentativa de sair do guarda-chuva da produção original. Neagley parece ter aproveitado a reputação de Reacher para criar uma identidade própria e longeva. Vamos ver.
A exemplo da série de Ritchson, Neagley usa e abusa de uma trilha musical de primeira e de uma bela fotografia. Não é imperdível, mas é bom entretenimento para refrigerante e pipoca.
