Mayday estreia em setembro no Apple TV

Crítica | Filme | Mayday

À primeira vista, Mayday parece ser mais um filme de ação ambientado nos últimos anos da Guerra Fria. Temos um piloto americano abatido em território soviético, um estranho russo vivendo isolado em uma região remota e uma situação que parece cada vez mais difícil de resolver. Mas, à medida que a história avança, percebe-se que o filme está interessado em outra coisa: como duas pessoas que deveriam ser inimigas acabam descobrindo que precisam uma da outra para sobreviver.

Antes de falar sobre a história, é importante mostrar quem são os responsáveis pela divertida história de Mayday: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. A dupla escreveu a comédia Quero Matar Meu Chefe (2011) e dirigiu Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), Game Night (2018) e Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes (2023). Daley, por sua vez, começou a carreira como ator na série Freaks and Geeks (1999), de onde também saíram nomes que se tornariam conhecidos nos anos seguintes, como Linda Cardellini (DTF St. Louis), Seth Rogen (O Estúdio), James Franco (127 Horas) e Jason Segel (Falando a Real).

Ou seja, o fato de Mayday ter um tom de ação, aventura e um pé na realidade é fruto dessa parceria. Tudo bem que a dupla também cometeu a adaptação do popular RPG Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes (2023). Não dá para acertar sempre…

Francis e Jonathan criaram uma história ambientada nos últimos anos da União Soviética, em 1987, quando as relações entre Estados Unidos e União Soviética começavam a passar por uma transformação profunda durante o governo de Mikhail Gorbachev. É nesse momento que vamos conhecer o piloto americano Troy Kelly, interpretado por Ryan Reynolds, em um personagem bem diferente daqueles que ele costuma fazer.

Troy foi escalado para uma missão secreta para sobrevoar o território soviético, pilotando um SR-71, conhecido no meio militar como Blackbird. Construído pela Lockheed, esse avião supersônico podia alcançar cerca de 3.300 quilômetros por hora, rápido o suficiente para passar pelo território soviético, tirar fotos de possíveis bases de lançamento de mísseis nucleares e voltar para casa. Não é o que acontece na missão de Troy.

Ele nem tinha começado a viajar sobre as cabeças dos soviéticos quando foi interceptado e derrubado. A situação lembra o episódio ocorrido em 1960, quando um avião-espião U-2 americano foi abatido sobre território soviético e seu piloto, Francis Gary Powers, foi capturado. A história seria levada ao cinema por Steven Spielberg em Ponte dos Espiões (2015).

Depois que seu avião é abatido, ele é salvo por Nikolai Ustinov (Kenneth Branagh), um homem que vive praticamente isolado do mundo. A situação deveria provocar alguma gratidão imediata, mas Troy é o típico militar americano que reza pelo velho ditado: esmola demais, santo desconfia. Afinal, ele está em território soviético e não sabe exatamente quem é aquele homem que resolveu ajudá-lo.

A desconfiança faz sentido dentro da história. Durante décadas, americanos e soviéticos foram apresentados como adversários, e o cinema ajudou a consolidar essa imagem. Em Mayday, porém, o roteiro começa justamente a desmontar essa visão. Nikolai é um personagem particularmente curioso porque, embora seja um soviético, demonstra enorme admiração pelos Estados Unidos.

Ele conhece a cultura americana, seus filmes e seus símbolos. Existe aí uma ironia que o filme explora com bom humor: o americano desconfia do russo, enquanto o russo parece admirar tudo aquilo que o americano representa. Só que a sobrevivência de Troy depende justamente desse estranho aliado.

A relação entre os dois vai mudando conforme as circunstâncias ficam mais perigosas. O que começa como uma relação de necessidade transforma-se gradualmente em uma parceria. Nenhum dos dois escolheu aquela situação. Eles simplesmente descobrem que, naquele momento, ser aliados é a única possibilidade de continuar vivos. E isso também vale para Nikolai.

À medida que conhecemos melhor o personagem de Kenneth Branagh, percebemos que ele não é apenas o homem que resgata o piloto americano. Ele tem seus próprios problemas e uma história familiar que ajuda a explicar seu isolamento. Sua relação com a filha, especialmente, acrescenta uma dimensão humana ao personagem e mostra como os conflitos daquela sociedade também atingiam sua vida particular.

O filme também toca na questão da homossexualidade da filha de Nikolai. Sem transformar o assunto em discurso, a história lembra o ambiente de forte repressão e discriminação enfrentado por homossexuais na União Soviética daquele período.

Mas Mayday não transforma essa questão em seu tema principal. Ela funciona mais como uma peça da história de Nikolai, ajudando a mostrar que, por trás daquele homem aparentemente excêntrico e isolado, existe alguém tentando lidar com problemas familiares tão humanos quanto aqueles encontrados em qualquer lugar do mundo.

É justamente aí que o filme começa a ficar mais interessante.

Há ainda uma divertida brincadeira com o cinema de ação dos anos 1980. Troy é justamente o tipo de piloto americano que Hollywood transformou em herói, e Top Gun – Ases Indomáveis aparece como uma referência importante para a construção do personagem. A ironia está no fato de que o homem que mais admira esse imaginário americano é justamente Nikolai, o ex-agente da KGB. O russo conhece os filmes, admira os Estados Unidos e chega a tratar aquela cultura como algo fascinante. É uma maneira inteligente de inverter a velha lógica da Guerra Fria.

Troy chega à União Soviética carregando toda a desconfiança de um americano diante do inimigo. Nikolai, por sua vez, carrega a experiência de alguém que viveu do outro lado daquela divisão. Aos poucos, entretanto, os dois deixam de ser americano e soviético para se transformarem simplesmente em dois homens tentando sobreviver. A Guerra Fria, nesse sentido, deixa de ser apenas o cenário da aventura. Ela passa a ser parte do conflito que os personagens precisam superar.

E existe uma ironia adicional: Mayday se passa em 1987, quando a própria Guerra Fria começava a entrar em seus capítulos finais. O mundo que havia dividido americanos e soviéticos durante décadas estava prestes a mudar radicalmente. No filme, essa transformação aparece de maneira quase simbólica através da relação entre Troy e Nikolai. Eles começam separados por tudo aquilo que aprenderam a pensar sobre o outro. Terminam descobrindo que uma amizade pode nascer justamente onde deveria existir apenas desconfiança.

Ryan Reynolds traz para Troy o humor e a agilidade que já fazem parte de seu repertório, sem exageros de outros personagens que já interpretou, por exemplo, com Denzel Washington em Protegendo o Inimigo (2012). Enquanto Kenneth Branagh encontra em Nikolai um personagem bem mais complexo do que sua aparência inicialmente sugere, a diferença entre os dois atores ajuda a construir a dinâmica da dupla e dá ao filme boa parte de seu charme.

No fim, Mayday pode até ser visto como uma aventura de ação sobre um piloto americano perdido em território soviético. Mas essa é apenas a superfície. Por baixo dela existe uma história bastante simples e, talvez por isso mesmo, eficiente: às vezes, para sobreviver, precisamos confiar justamente na pessoa em quem fomos ensinados a não confiar. E é dessa contradição que nasce a amizade mais improvável do filme.

Mayday está disponível na Apple TV.

Deixe uma resposta