Mistérios são muito interessantes, ainda mais somados a um tanto de sexo, casais disfuncionais e, claro, dinheiro. Essa é a receita de Verity, suspense com a hoje em dia quase onipresente Anne Hathaway, Josh Hartnett e Dakota Johnson. Pena que a promessa de um thriller erótico não seja cumprida.
Baseado no livro de Colleen Hoover, o enredo do longa busca confundir o público sobre o que de fato aconteceu meses antes de encontrarmos Lowen, uma jovem escritora de livros de mistério. Ainda sem um nome no mercado, ela enfrenta a humilhante situação de ter menos de meia dúzia de gatos pingados na leitura de seu livro que não só é interrompida por um celular tocando, mas pela proprietária do aparelho dizendo que pode atender porque não está fazendo nada importante. Numa caracterização muito parecida com seu papel mais famoso em Cinquenta Tons de Cinza, Dakota Johnson é bonita, jovem, um tanto aérea e ciente disso. Em um momento que arranca risos da plateia no lugar errado, sua personagem diz que tem “cara de tédio”.
Cumprida a penitência de ler para as cadeiras vazias, Lowen é lembrada por seu agente de que tem uma reunião com a Hachette, gigante do mercado editorial e responsável pelos livros de Collen Hoover num nada sutil cruzamento entre realidade e ficção. A proposta é invejável, ajudar a grande autora Verity Crawford (Hathaway) a terminar a série de livros que a tornou o que Lowen almeja ser, famosa e milionária, interrompida após a escritora ficar paralisada e catatônica em consequência de um acidente. Entram em cena a mansão isolada de arquitetura pontiaguda, corredores estreitos sempre à meia luz e diante de um lago congelado, a enfermeira com cara de má e o marido, Jeremy (Hartnett), bonzinho, triste e gostoso.
Começa, então, o jogo de onde está a verdade, infelizmente marcado por decisões sem muita lógica. Quem se mudaria para a casa distante de desconhecidos e ainda aceitaria ficar no quarto principal? Que família com óbvias condições financeiras continuaria vivendo no lugar onde não apenas uma, mas duas tragédias aconteceram? O filme se esforça, enquanto Lowen se mete numa banheira numa cena que deveria ser sexy, mas é apenas incômoda e em nada avança o roteiro, e ouvimos Verity narrar o início de sua carreira, como ela e Jeremy se conheceram e como o nascimento dos filhos gêmeos desequilibrou a vida do casal, até que o acidente praticamente encerrasse a vida de Verity, Ou não, e isso não é um spoiler, pois a dúvida está no trailer.
Dúvida que segue e pretende dividir o público entre quem acredita no manuscrito e quem acredita na carta, os dois documentos escritos por Verity antes do acidente. É o tipo de produção que busca o desacordo e a disputa sobre o que é verdade, quem está escondendo algo, quem sabia e quem não sabia. O trio de atores se sai bem nesse ponto de mostrar alternadamente versões boas e monstruosas do mesmo personagem enquanto o público vai deixando de lado a quantidade de coincidências e incongruências do roteiro. Entre elas, onde foi parar a enfermeira.
Poderia ter sido um ótimo suspense, mas mirou alto demais para a munição que recebeu.
